Contar agulhas não enriquece ninguém

Perto do coração é um livro de crônicas de minha autoria, com prefácio do acadêmico José Nivaldo Júnior, que conheci nas jornadas políticas, ele publicitário sócio da Makplan, eu no ofício de jornalista. Quis o tempo e o destino que José Nivaldo se convertesse de vez ao jornalismo e hoje tenha virado meu divisor das águas e dos furos no jornal O Poder.

No livro, deixo o pouco que entendo de política para debulhar palavras em contos e crônicas do que vivi no meu Sertão do Pajeú, região movida pelo nobre sentimento da poesia improvisada, gerada de sopros de cantadores ao som das suas mágicas violas. Conto, sobretudo, o mundo familiar propiciado pelos meus pais Gastão e Margarida, esta chamada por Deus há sete anos, meu velho hoje aos 98 anos ainda a contemplar a lua cheia do Sertão estrelado, o chão de estrelas, palco iluminado, de Silvio Caldas.

A porta do barraco de Silvio Caldas era sem trinco, mas a sua lua, como a minha, furava o zinco e salpicava de estrelas nosso chão. Se ele

pisava nos astros distraído sem saber que a ventura da sua vida era a cabrocha, o luar e o violão, eu parecia encantado com as lições de vida bebendo na própria fonte do meu pai. Para os padrões da época, até o plano Collor sugar o último vintém do meu pai, ele era um homem rico.

Proprietário de uma das maiores miudezas da região, em dia de feira, aos sábados, eu via meu pai, ao lado do meu irmão primogênito Tarso, encerrar o dia nadando em dinheiro do apurado de uma freguesia sem limites, graças a Deus. Meu pai nasceu vocacionado para o comércio, as letras e a vida pública.

Além do comércio, quatro mandatos de vereador e um de vice-prefeito de Afogados da Ingazeira, papai tinha fazendas, criava gado, caprinos e ovinos. Já escreveu três livros e foi dono de grandes extensões de terras. Praticamente toda a área do bairro da AABB em Afogados da Ingazeira já pertenceu a ele. Ali, ele transformou a área, incluindo a própria sede social do Banco do Brasil, num grande loteamento.

Os lotes eram vendidos em suaves prestações com parcelas de 12 a 24 meses. O filho escalado cobrador das mensalidades acabou sendo eu. Segundo papai, me revelei num ótimo cobrador. Quando chegava a data do vencimento, geralmente final de mês, eu pegava o pacote de carnês e saia catando os devedores em suas casas e nas ruas.

Minhas batidas eram no jeito manhoso do convencimento. Do apurado, papai me dava 10%, mas só quando entrava o último pagamento de mais de 200 clientes. Eu andava mais do que notícia ruim e suava mais do que cueca de carteiro sonhando na porcentagem que entraria no meu bolso.

Na loja, meu pai vendia de tudo. Certa vez, o médico João Ezio Marques, hoje atuando em Palmas, no Tocantins, chegou na miudeza no final do expediente, justamente na hora que papai contava o apurado do dia, uma montanha de dinheiro resultado das compras da matutada, de elástico, botão e sabonete a finas agulhas de costura.

Impressionado com a cena, João Ezio provocou papai: "Eita Gastão, que fartura! Tu vais ficar muito rico com esse comércio".

 Mas sabido que o médico, um grande amigo da família, filho de Romão Marques, o mais notável e careiro alfaiate da cidade, papai entendeu a gozação e assim respondeu:

"João Ezio, tu já viste na tua vida um homem ficar rico contando agulha de costurar? Isso dá trabalho demais".

Meu pai era um sábio. Essa historinha João Ezio me relatou num comentário postado no Facebook no último fim de semana.

Publicado em: 15/07/2020