Meu adeus ao Mr. Magoo

Por Edson Barbosa

Eram 22 horas naquele junho chuvoso de 2006. No dia seguinte, encerrava o prazo para a definição das coligações partidárias que se formariam para disputar as eleições daquele ano. Em Pernambuco, Eduardo Campos construíra, a duras penas, uma coligação com o PDT, de José Queiroz e João Lyra. Era pouco para a pretensão que tinha na sua carreira meteórica.

Meu telefone tocou, era Eduardo.

– Edson, Severino e Inocêncio toparam compor com a gente, são dois partidos, um minuto e meio a mais no horário eleitoral, o que tu achas?

– Não é só o tempo na televisão e no rádio, não, governador, respondi. E completei: É Severino de João Alfredo e Inocêncio de Serra Talhada. Eles têm tropa, e não são pequenas.

Feitos os acordos políticos, Severino e Inocêncio entraram na campanha com a faca nos dentes. Sem eles, não sei se teria sido possível a vitória em 2006. Hoje, foi-se embora o velho Severino, pai de Ana e Zé Maurício, dois queridos amigos que a vida me deu em Pernambuco.

Muitas histórias serão contadas a seu respeito. Eu tenho uma. Depois de ter feito a apresentação de uma pesquisa ao comando da campanha, com projeção surpreendente (e quase inacreditável para o senso comum à época) ele me puxou num canto da sala junto com Eduardo e sapecou: “Governador, eu não acredito numa palavra do que esse rapaz disse aqui, mas se ele tiver 10 por cento de razão, a gente ganha a eleição".

Eu rebati no ato: “Deputado, se alguém lhe dissesse que um matuto de João Alfredo, como o senhor, chegaria à Presidência da Câmara, o senhor acreditaria na pessoa?”

Ele abriu um sorriso contagiante, que me fez lembrar o Mr. Magoo, meu herói dos desenhos animados e sapecou: “Se essa história não der certo, eu te pego depois”.

Eita Pernambuco profundo, misterioso, cheio de personagens reais, impensáveis, quase irreais, que serão cultivados pela memória mitológica dos historiadores que virão por aí. O velho Severino Cavalcanti é um desses.

Publicado em: 15/07/2020