Coluna da quinta-feira

O poder covidou

A Covid-19 atinge cheio o poder e os poderosos. Além do presidente Jair Bolsonaro, diagnosticado na última terça-feira, pelo menos 12 integrantes dos três Poderes foram contaminados. Nos executivos estaduais, quase 30% dos governadores do País foram contaminados, entre eles Paulo Câmara (PE), Renan Filho (AL), Ibaneis Rocha (DF) e Wilson Witzel (RJ), segundo levantamento do site Terra. Na lista de infectados há ainda os prefeitos de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), e de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), além do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o senador Nelsinho Trad (PSD-MS).

Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e Bento Albuquerque, de Minas e Energia, foram os únicos ministros do Governo acometidos pela covid-19 até agora. Depois do diagnóstico de Bolsonaro, ao menos 13 ministros que se encontraram com ele também fizeram exames. Tanto Heleno como Albuquerque foram infectados na comitiva de Bolsonaro aos Estados Unidos em março deste ano. Com direito a jantar no sul da Flórida na presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a viagem deixou mais de 20 pessoas infectadas, incluindo o secretário de comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, com quem Bolsonaro teve contato.

Antes de divulgar o teste positivo, Bolsonaro chegou a realizar três testes, mas afirmou que todos deram negativos. O presidente decidiu repetir o exame na última segunda após ter febre de 38ºC. Grupo de risco pela idade – de 65 anos –, Bolsonaro tem usado a doença para fazer 'propaganda' da hidroxicloroquina, medicamento que diz já estar tomando, mas que não tem comprovação de eficácia para o coronavírus. No Senado, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, e o parlamentar Nelsinho Trad já tiveram a doença.

Trad esteve na comitiva com Bolsonaro e chegou a ficar internado no Hospital Sírio Libanês de Brasília. Adversário do presidente, o governador do Rio anunciou que foi diagnosticado no dia 14 de março, depois de sentir febre, dor de garganta e perda de olfato. O mandatário fluminense não teve grandes complicações, mas relatou em vídeo divulgado em suas redes sociais que a doença não é "igual a qualquer outra". Além dele, foram infectados pela covid-19 os governadores Carlos Moisés (PSL), de Santa Catarina, Mauro Mendes (DEM), de Mato Grosso, Helder Barbalho (MDB), do Pará, Renato Casagrande (PSB), do Espírito Santo, e Antonio Denarium (PSL), de Roraima.

O caso mais recente é o de Santa Catarina, que fez o anúncio no dia 1° de julho. O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, foi um dos casos de maior gravidade entre os políticos. Aos 74 anos, ele foi contaminado pelo vírus e está com 30% do pulmão comprometido. Apesar disso, vem se recuperando bem. Na última segunda, divulgou que vai dar continuidade ao tratamento em São Paulo, no Hospital Sírio Libanês. Bruno Covas, prefeito da capital paulistana, recebeu o diagnóstico positivo, mas não apresentou sintomas da doença. Ele vinha fazendo exames periódicos por causa do tratamento de um câncer no sistema digestivo.

Internacionais – Bolsonaro não foi o único presidente cujo teste para o novo coronavírus deu positivo. Outros chefes de Estado e políticos de outros países também tiveram a doença, incluindo Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, e Juan Orlando Hernández, presidente de Honduras. Em Pernambuco, a doença pegou, além do governador, o secretário de Saúde, André Longo, e a vice-governadora Luciana Santos, que contaminou o seu parceiro, o deputado estadual Waldemar Borges. Diferente do que se deu no Amazonas, em Pernambuco nenhum político teve que se internar. Foram curados em casa, mas ao contrário de Bolsonaro, nenhum deles assume que tomou cloroquina.

Cloroquina – O presidente Jair Bolsonaro afirmou em vídeo nas redes sociais que está se sentindo melhor do que nos últimos dias, após ter anunciado que teve resultado positivo em teste para a Covid-19. "Estou tomando aqui a terceira dose da hidroxicloroquina. Estou me sentindo muito bem, estava mais ou menos no domingo, mal na segunda-feira, hoje, terça, estou muito melhor do que sábado, então, com toda certeza, está dando certo", disse Bolsonaro em vídeo publicado no Facebook. "Sabemos que hoje em dia existem outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus, sabemos que nenhum tem sua eficácia cientificamente comprovada, mas eu confio na hidroxicloroquina", acrescentou.

No seco – Na terça-feira passada, quando o presidente testou positivo para a Covid-19, Jornal Nacional, da TV-Globo, optou não utilizar material da EBC, a estatal de comunicação do Governo, do anúncio feito por Jair Bolsonaro. Para dar a notícia, os âncoras William Bonner e Renata Vasconcellos leram 'nota seca', jargão jornalístico para um texto apresentado sem o acompanhamento de imagem. O presidente chamou ao Palácio da Alvorada apenas a EBC, a RecordTV e a CNN Brasil para registrar seu comunicado sobre o diagnóstico. Classificada como 'inimiga', a Globo ficou de fora. Alvo frequente de sugestões de boicote por parte de bolsonaristas, a principal emissora do clã Marinho tem 'boicotado' Bolsonaro nos últimos tempos.

Jornalismo de oposição – Na linha de oposição, a TV-Globo exibe imagens e sonoras do presidente apenas quando é imprescindível. Há evidente tentativa de não o promover no horário mais nobre e de maior audiência do telejornalismo brasileiro. Mais do que isso, o JN se tornou a atração mais crítica a Bolsonaro, com frequentes contestações do que ele diz e de como age em relação aos protocolos de prevenção de contaminação da covid-19. Esse jornalismo de oposição ao presidente surte efeito no Ibope. O JN está com médias diárias acima de 30 pontos, índice que representa 6 milhões de telespectadores a cada noite somente na região metropolitana de São Paulo.

CURTAS

QUANTOS CONTAMINOU? – O efeito colateral é a hostilização sofrida por equipes da Globo e especialmente pelo apresentador e editor-chefe William Bonner. Ele passou a evitar aparições públicas depois de receber xingamentos e provocações. O jornalista que já foi desafiado por Bolsonaro para um confronto cara a cara diz não entender o "ódio" e a "maldade" dos ataques contra ele. Já a GloboNews, canal da Globo por assinatura, foi mais contundente. Quantas pessoas podem ter sido contaminadas por Jair Bolsonaro? Em busca dessa resposta, produziu uma retrospectiva dos passos do presidente nos últimos dias. Listou todos os eventos públicos e reuniões privadas com a presença dele. A exibição aconteceu nos telejornais vespertinos e noturnos do canal na terça-feira. Em entrada ao vivo no Edição das 18h, o repórter Vitor Boyadjian lançou a questão: "Quantos foram contaminados pelo presidente?"

IRRESPONSÁVEL – A emissora de notícias do Grupo Globo também fez uma arte exibida em telão no estúdio com uma comparação entre frases polêmicas de Bolsonaro e a curva de contaminações e mortes provocadas pela doença. Sugeriu que o desdém e as ironias do presidente ao minimizar a letalidade da covid-19 contribuíram para o agravamento da pandemia no Brasil. Não faltaram o "É uma gripezinha", o "E daí?", o "Não sou coveiro" e o "Não faço milagre". O comentarista de política Gerson Camarotti chamou Bolsonaro de "irresponsável" por ter comparecido a compromissos no último fim de semana, quando já apresentava sintomas. "Ele se tornou um vetor de transmissão da covid-19", afirmou.

PESQUISAS – Depois do quadro sucessório de Olinda, postado hoje neste blog, a expectativa se volta agora para a sucessão no Recife. A primeira pesquisa Potencial/BlogdoMagno de intenção de voto para prefeito da capital vai a campo neste fim de semana para divulgação à meia noite da próxima quarta-feira. A intenção é ampliar esses levantamentos até as cidades mais importantes do Estado, como Cabo, Paulista, Igarassu, Caruaru, Garanhuns, Petrolina, Arcoverde, Serra Talhada, Palmares e outras.

Perguntar não ofende: Se a pandemia está crescente no Interior sem estrutura de hospitais por que desativar os hospitais de campanha na capital?

Publicado em: 08/07/2020