Coluna da terça-feira

Dias não age como a delegada

Pré-candidata à prefeita do Recife, a delegada Patrícia Domingos parece nunca ter lido a biografia e acompanhado de perto ou longe a trajetória política do seu hoje maior guru, o líder do Podemos no Senado, ex-governador Álvaro Dias (PR). Uma das lideranças de maior envergadura no campo da oposição no Congresso, Dias foi vereador, deputado estadual, deputado federal, governador do Paraná e é a mais expressiva representação do seu Estado no Senado pela terceira vez.

Filho de paulistas católicos que ajudaram a colonizar o norte do Paraná, o pai de origem portuguesa e mãe descendente de italiano, Álvaro Dias ingressou na vida pública como vereador em Londrina em 1968 pelo MDB, partido que fez história no País no combate à ditadura. Testado nas urnas, foi eleito em seguida deputado estadual e mais tarde o mais votado para a Câmara dos Deputados, aliás a maior votação do seu Estado até então, o que o consagrou definitivamente.

Cara nova no Congresso, teve seu nome incluído em diversas listas de cassação elaboradas pelo regime militar, em virtude de sua postura radicalmente oposicionista ao Governo da repressão. Tornou-se um dos vice-líderes do MDB na Câmara, destacando-se por seus veementes discursos denunciando a existência de corrupção no governo militar. Com a extinção do bipartidarismo em 1979 e a consequente reformulação partidária, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

Em 82, foi eleito senador pela primeira vez, tendo sido organizador do primeiro comício pelas diretas já. Quatro anos depois, em 86, o povo a ele entregou o poder no Paraná, rejeitando o opositor Alencar Furtado. Como governador, Dias promoveu uma profunda reforma administrativa, que incluiu enxugamento do Estado, cortes de privilégios e combate à corrupção, o que contribuiu para que a sua gestão fosse marcada por altos índices de aprovação. Em seu segundo ano de governo, alcançou a marca de 90% de aprovação, segundo o Ibope.

Ao final do mandato, entregou um Paraná que foi o único Estado do País que encerrou o ano de 1991 não só sem déficit econômico, mas com superávit acima de 6 bilhões de cruzeiros. Álvaro Dias está no seu terceiro mandato de senador, uma prova de que é um político extremamente antenado com o povo da sua terra. Ninguém sobrevive tanto tempo na vida pública se não foi verdadeiramente porta-voz dos mais altos interesses do povo sofrido e ignorado pelo poder público.

O bom político é aquele ético e honesto, que luta pelos anseios da população, que está presente na sociedade que o elegeu, que dá respostas a todos de seu trabalho, que não abandona suas bases. Patrícia Domingos ingressou no Podemos de Álvaro Dias sem ter essa ampla visão de vida pública. Quer ser prefeita do Recife sem desencarnar da cultura e do ranço autoritário de delegada. Ao invés de processar jornalista, como anunciou, ontem, apontando o dedo para este blogueiro, deveria se espelhar no senador e líder do seu partido.

Na live no Instagram do meu blog, na semana passada, Álvaro Dias fez uma firme e corajosa defesa da liberdade de Imprensa. “Nunca processei nenhum jornalista em minha vida”, afirmou. Ao invés de se insurgir contra a Imprensa, a delegada deveria ter a compreensão de que se o cidadão não puder usufruir da liberdade do livre pensamento, não há como dizer que de fato exista liberdade. Sem liberdade de expressão, deveria entender a delegada, não existe soberania popular em local algum.

Triste notícia – Já virou uma terrível rotina, lugar comum, fechar cada dia com a notícia de que Pernambuco teve grande número de óbitos pela Covid-19. Ontem, foi mais preocupante ainda: segundo dados oficiais da Secretaria estadual de Saúde, foi o maior registro diário de mortes pelo vírus do terror desde o início da pandemia, em março, com 124 novos óbitos. Também de acordo com o boletim, foram confirmados mais 642 casos da doença causada pelo novo coronavírus, levando o Estado a ultrapassar o número de 20 mil confirmações, com 20.094 pacientes. Esse recorde na confirmação laboratorial diária de mortes por Covid-19 foi causado por um atraso na informação sobre os resultados dos hospitais da rede privada.

BH também vira caos – Belo Horizonte, que vinha sendo referência no enfrentamento à pandemia do coronavírus, parece ter perdido o controle. De apenas 28, subiu para 96 o número de óbitos na capital mineira. Ali, o que se viu nos últimos dias foram fileiras de caixões esperando enterros simultâneos, necrotérios abarrotados aguardando a liberação de vítimas. Reflexo da escalada de mortos. As unidades de saúde abarrotadas obrigam profissionais a trabalhar à exaustão para atender 1.973 doentes, muitos sem leitos ou entubados, dividindo ventiladores mecânicos. Outros, à espera de que alguém se cure ou morra para com essa máquina voltar a respirar.

Grande notícia – Diante de tamanhas tragédias no Brasil, veio ontem a melhor notícia do dia: a empresa americana de biotecnologia Moderna anunciou nesta segunda-feira (18) ter obtido resultados "positivos preliminares" na fase inicial de ensaios clínicos de sua vacina contra o novo coronavírus. Os testes foram feitos em um pequeno número de voluntários. Segundo a empresa, a vacina produziu resposta imune em oito pacientes que a receberam, afirmou a agência de notícias France Presse. Há, atualmente, 118 vacinas contra o coronavírus sendo desenvolvidas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Entre elas, oito estão em fase clínica (entre elas, a da empresa Moderna) e 110 em fase pré-clínica. No Brasil, começam nesta semana os testes de vacina em animais feitos pelo Incor.

Vídeo bombástico – O ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, recebeu, ontem, em seu gabinete, em Brasília, o vídeo da reunião ministerial do governo Jair Bolsonaro do dia 22 de abril, e começou a assistir a gravação por volta das 18h. O ministro deverá decidir pelo levantamento do sigilo, integral ou parcial, até o final desta semana. Na última sexta, Celso de Mello pediu à Polícia Federal a íntegra da gravação para assisti-la de sua residência, em São Paulo, por meio de um sistema da Corte conectado ao seu gabinete, em Brasília, onde estariam presentes o chefe de gabinete do ministro e o juiz federal auxiliar Hugo Silvando Silva Gama Filho.

CURTAS

DEFESA – A defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) rebateu as denúncias do empresário e pré-candidato à Prefeitura do Rio pelo PSDB, Paulo Marinho, de que o filho mais velho do presidente teria recebido vazamento da Polícia Federal (PF) sobre investigações envolvendo seu ex-assessor na Assembleia Legislativa do Rio, Fabrício Queiroz. De acordo com o relato de Marinho ao jornal Folha de São Paulo, um delegado federal teria procurado o então deputado estadual Flávio Bolsonaro em outubro de 2018, pouco após o primeiro turno das eleições daquele ano, para recomendar que o funcionário fosse demitido. No dia 15 do mesmo mês, foram exonerados tanto Queiroz quanto a filha dele, Nathalia Queiroz, lotada no gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados.

TINHA QUE SER ELE! – Em meio ao esquizofrênico debate que se trava no mundo, especialmente no Brasil, sobre o uso da cloroquina como remédio eficaz para escapar da morte pelo coronavírus, presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou, ontem, que está tomando a hidroxicloroquina “há algumas semanas”. O republicano disse que decidiu fazer isso porque ouviu “coisas boas” sobre o medicamento. “Eu estou tomando. Comecei há algumas semanas. Acho que é bom, ouvi coisas boas [sobre o medicamento]. E se não for bom, eu falarei. É usada há 40 anos contra malária, lúpus e outras coisas. Eu tomo, trabalhadores da linha de frente tomam, vários médicos tomam”, afirmou.

ADIAMENTO DO ENEM – Os líderes do Senado decidiram colocar na pauta de hoje o projeto que adia o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) por conta da pandemia de covid-19. A proposta original é da senadora Daniela Ribeiro (PP-PB), mas pode passar por ajustes até chegar ao plenário. A medida original prevê que o adiamento das provas seja até o fim do ano letivo das escolas públicas e privadas. Líderes, entretanto, já falam em possíveis datas para o adiamento. O líder do PDT, Weverton (PDT-MA), aposta entre os meses de dezembro de 2020 ou fevereiro de 2021.

Perguntar não ofende: O Brasil aguenta mais um impeachment em tão pouco tempo do seu processo de redemocratização?

Publicado em: 18/05/2020