Coluna da quinta-feira

Guerra contra o inimigo

A pandemia do coronavírus não acende a luz em nenhum fim do túnel, seja no Brasil ou qualquer parte do mundo. Quanto mais se vira a página do calendário, mais mortes, mais casos confirmados. O inimigo invisível não distingue raça, cor, idade ou posição social. É devastador, um tsunami que desafia a ciência e o homem.

Na guerra contra o inimigo, tudo é válido. O uso de um remédio a base de cloroquina associada a antibióticos virou a bola da vez da discórdia. Enquanto pacientes afirmam que venceram o dragão usando a droga, Governo e entidades médicas se dividem.

Diante disso, um abaixo-assinado por iniciativa do universo médico pedindo autorização para uso da droga já contava, desde ontem, com mais de duas mil assinaturas em apenas dois dias. Isso, vale a ressalva, somente de profissionais pernambucanos. No Brasil, a adesão tem sido na mesma intensidade, segundo o deputado Alberto Feitosa (SD), que lidera a corrente política em favor da liberação do remédio.

Para Feitosa, que ontem fez uma live com uma médica especializada no assunto, a cloroquina associada a outras drogas, embora não oficial e liberada, tem salvado muitas vidas. "Eu tenho amigos curados pelo uso da droga", atesta o parlamentar. Ele está convencido de que o remédio é eficaz e milagroso, apontado nesse momento como a melhor solução aos que foram contaminados.

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz Britto Ribeiro, já entregou ao presidente Jair Bolsonaro um parecer em que afirma não haver evidências da eficácia do uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. Ribeiro afirmou, no entanto, que os médicos estão autorizados a prescrever a substância para os pacientes em determinadas situações. Bolsonaro já defendeu diversas vezes a utilização da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus.

Patinho feio – A droga pode elevar o status de um patinho feio da indústria farmacêutica. Trata-se de uma molécula utilizada clinicamente desde 1944 para combater malária e com efeitos adversos já registrados que vão de alergias a arritmias cardíacas, podendo provocar até a morte de pacientes suscetíveis. Barata, com a patente expirada há mais de 50 anos, o “ovo de Colombo” do presidente Bolsonaro contra a pandemia, importado do presidente Donald Trump – o primeiro a propagandear a substância – tem uma série de contraindicações e nenhuma comprovação científica de sua eficácia contra o coronavírus até o momento.

Efeitos colaterais – A cloroquina e a hidroxicloroquina (substância derivada) vêm sendo utilizadas em diversos hospitais públicos e privados no Brasil, não raramente associadas ao antibiótico azitromicina, o que aumenta o risco de efeitos colaterais como atesta nota técnica da Fiocruz emitida a pedido da presidência da entidade. “Eu imagino que a presidência pediu que fizéssemos a nota por causa da pressão, até na mídia, para que se comece a usar a cloroquina de forma maciça para o combate à Covid-19 e também pela dificuldade de fazer a comunidade entender que o fato de um medicamento ter um uso promissor em estudos pré-clínicos, não necessariamente significa que ele vai ser um bom medicamento nos estudos clínicos”, disse a pesquisadora Flor Espinosa, da Fiocruz Amazonas.

Estado de sítio – Em sua coluna no jornal O Poder, o multicomunicador José Nivaldo Júnior avalia que o decreto do governador Paulo Câmara, que trata da quarentena a partir do próximo sábado, comete uma atrocidade ao estabelecer a prisão domiciliar em cinco municípios metropolitanos, depois de 60 dias de isolamento social. "Na ocasião, escrevemos aqui que não ia dar certo e justificamos a nossa opinião. Deu errado. Agora, analisando com muita calma a medida mais desastrada já adotada por um governante de Pernambuco, desde Duarte Coelho, registro: o pacotaço é inútil para os pobres e um inferno para a classe média. Torço sinceramente para estar errado", escreveu.

Prefeita no muro – Em Arcoverde, o ex-prefeito Zeca Cavalcanti, candidato do PTB, fechou a chapa com Eduíno Filho, filho do ex-vereador e ex-deputado Eduíno Brito, na vice. Corre solto enquanto os dois pré-candidatos que disputam a preferência do apoio da prefeita – o delegado Israel Rubis, do (PR), e a vereadora Cybele Roa (Podemos) – estão perdendo tempo e sendo embromados por Madalena. Sem ter a certeza quanto ao nome mais competitivo, Madalena usa o Covid como pano de fundo para ficar em cima do muro. Está literalmente “empurrando com a barriga” a sua escolha. Rubis e Cibely não sabem se marcham sozinhos ou assumem o desgaste da atual gestão, marcada pela impopularidade. As plataformas das duas candidaturas são muito heterogêneas, conflitantes e envolvem bastante um componente difícil de administrar, chamado vaidade. Enquanto as negociações continuam, Zeca segue solto, firme e à frente.

CURTAS

CARAVANA – O Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) está investigando a conduta de médicos que participam do programa “Doutores de Verdade”, que promove tratamento e administração de remédios contra a Covid-19 em comunidades carentes do Recife. Segundo o conselho, apuração da conduta dos profissionais de saúde, em parceria com uma deputada estadual Clarissa Tércio (PSC), é regida pelo Código de Processo Ético (CPEP), estabelecido pelo Conselho Federal de Medicina. A parlamentar financia parte das ações e divulga pela internet as atividades do grupo. A atividade também provocou a reação do Ministério Público de Pernambuco (MPPE).

MÁSCARA OBRIGATÓRIA – A partir de sábado (16), quando começa a quarentena em cinco cidades de Pernambuco, motoristas e cobradores de ônibus podem chamar a polícia para retirar dos coletivos passageiros que se recusarem a utilizar máscaras ao embarcar. Além disso, de acordo com o governo do estado, operações "de choque" serão montadas nos municípios para fiscalizar as pessoas que estiverem nas ruas sem necessidade comprovada.

PAULISTA – Com 951 casos do novo coronavírus, o quarto maior número de Pernambuco, Paulista, no Grande Recife, ficou fora da nova quarentena. Por isso, ontem, o prefeito da cidade, Júnior Matuto (PSB), cobrou ao governo do estado a entrada na lista de municípios que terão medidas mais rigorosas para impedir o avanço da Covid-19. De acordo com dados do Ministério da Saúde, Paulista tem mais casos do que Camaragibe, com 450 ocorrências de Covid-19, e do que São Lourenço da Mata, com 258. “Será que o governo vai esperar até o caos piorar para incluir Paulista nesse decreto?”, questionou o prefeito.

Perguntar não ofende: Vai ter cadeia para todo mundo flagrado nas ruas a partir de sábado?

Publicado em: 14/05/2020