Coluna da segunda-feira

O elo sertanejo com o Recife

No último dia permitido para troca de partido, sábado passado, seguindo fielmente o que está prescrito nas regras eleitorais aprovadas pelo Congresso, Tabira, a 400 km do Recife, foi protagonista de uma mudança que pode até não está atrelada ao toma-lá-dá-cá do Recife entre PSB e PT, até pela pouca importância da cidade frente ao grande contingente eleitoral da capital, mas nas suas entrelinhas algo remete à sucessão do prefeito Geraldo Júlio.

Em nome da executiva estadual do PT, o deputado federal Carlos Veras, cão de guarda do senador Humberto Costa, que não tolera Marília Arraes e tudo fará para atropelar seus passos no Recife, filiou Flávio Marques (foto) no PT, ex-secretário forte do prefeito de Tabira, Sebastião Dias (PTB), e, com as benções do Palácio e da direção do PSB, levou praticamente todos os vereadores da base do prefeito para o ninho socialista.

Ex-aliado do senador Armando Monteiro, o prefeito-poeta, aliciado pelo governador Paulo Câmara com a contaminação do deputado estadual Antônio Moraes, perdeu o direito de montar a sua chapa. Veras impôs Flávio na cabeça de chapa, ou seja, o PT, e aceitou Zé de Bira, que na eleição passada disputou a eleição de prefeito como terceira via, sendo uma grata surpresa nas urnas, como vice indicado pelo PSB.

Os aliados do prefeito só não ficaram chupando o dedo, literalmente, porque Flávio era o seu xodó na gestão. Mas a base dele na Câmara murchou, perdendo três vereadores para a oposição, que tem no ex-prefeito Dinca Brandino (MDB) principal sustentáculo. Só que está impedido de disputar e vai, novamente, colocar a esposa Nicinha como candidata, mas com um reforço: a presidente da Câmara, Nelyy Sampaio (PSC), que não aceitou o conchavo PT-PSB, será a vice na chapa de Nicinha.

A reprodução da aliança tabirense não é caso isolado. O blog teve acesso, ontem, a um áudio em que o mesmo deputado Carlos Veras, natural de Tabira, negocia para levar o PT em Afogados da Ingazeira, cidade vizinha e mais importante do Sertão do Pajeú, para uma composição com o candidato do PSB, o vice-prefeito Alessandro Pereira, o Sandrinho, apadrinhado pela principal liderança socialista da região, o prefeito José Patriota, presidente da Amupe, a Associação Municipalista de Pernambuco.

No áudio, Veras diz que a ordem da direção do PT é juntar os cacos com o PSB nos municípios onde for possível. No cenário de Afogados da Ingazeira, o nocaute será dado no empresário Emídio Vasconcelos, que disputou a Prefeitura na eleição passada e já estava se preparando para ser convocado de novo.

Reflexos em afogados – Se o PT vier de fato a indicar o vice de Sandrinho em Afogados da Ingazeira, a chamada Frente Popular vira letra morta. O ex-prefeito Totonho Valadares (MDB), que há pouco teve uma longa conversa com Patriota em busca da construção de um palanque único, perde a vaga de vice reservada para um aliado. Carlos Veras quer e tem o aval do PT estadual para um petista na vice de Sandrinho, conforme deixa bem claro o áudio em que trata das negociações em poder deste blog. Dá para perceber que o jogo do PT estadual é manter vivo o casamento com o PSB por uma simples estratégia: quanto mais a aliança se reproduzir nos municípios, mais munição os anti-Marilia terão para bombardear seu projeto eleitoral no Recife.

Ex-líder atingido – A intervenção do deputado Carlos Veras em Tabira provocou incêndio na base do governador Paulo Câmara na Assembleia Legislativa. Ex-líder do Governo na Casa, o deputado Waldemar Borges (PSB) se sentiu golpeado. Segundo mais votado em Tabira, com o Palácio apalavrado de que o PSB apoiaria sua pré-candidata Nelly Sampaio, Borges viu, sem nada poder fazer, todos os aliados do prefeito Sebastião Dias (PTB), entre vereadores com mandato ou não, fazer a travessia para o PSB numa jogada de Veras com o presidente municipal da legenda, Pipi da Verdura.

Reação de Waldemar – Num áudio, o deputado Waldemar Borges (PSB) bateu duramente no prefeito Sebastião Dias, que tomou o PSB dele. “Faz uma gestão desastrosa, incompetente e inoperante”, disse, adiantando tratar-se de um vazio administrativo. Ressaltou não entender que o PSB deu guarida a quem fez oposição ao Governo Paulo Câmara nos últimos oito anos. “Fizeram uma aliança que exclui do PSB todos aqueles que, historicamente, fizeram oposição ao prefeito”, acrescentou. Borges estranha que os vereadores do prefeito não tenham se filiado ao PT, o que seria natural. “A gente nunca foi contra uma aliança do PT com o PSB. O que não contávamos era que o PT traria a tiracolo a gestão do prefeito, extremamente desgastado. Isso não foi colocado em nenhum momento nas negociações”, afirmou.

Trololó em Arcoverde – Outro imbróglio para o PSB está em Arcoverde, janela de entrada para o Sertão, a 250 km do Recife. Ali, a prefeita Madalena Brito, principal liderança socialista na região, passou o fim de semana tentando encontrar um candidato para chamar de seu. Só restou a vereadora Cybele Roa, filiada ao Avante e integrante do grupo do deputado Sebastião Oliveira. Madalena teve longas rodadas de negociação com ela e o marido Rodrigo, mas não conseguiu o que queria: que ela trocasse o Avante pelo PSB e nesta condição ser a candidata oficial à sua sucessão. Presidente de fato, mas ainda não de direito do Avante, o deputado Sebastião Oliveira bateu o pé e não aceitou. “Seria a mesma coisa de no caso do Recife o Avante só apoiar João Campos se ele se filiasse ao partido”, desabafou. 

CURTAS

MORTE DE GESTANTE – Recife teve o primeiro caso de morte de uma gestante que estava internada com confirmação de Covid-19, o vírus da morte. Trata-se de uma enfermeira que atuava na rede particular. Viviane Albuquerque era mãe de gêmeas e estava esperando um menino, a grávida estava com 31 semanas e foi operada às pressas, enquanto estava na UTI de um hospital privado. Agora a família espera o resultado do exame para saber se o bebê é portador do vírus. Não foi por falta de advertência. Tão logo a pandemia foi confirmada, a vereadora Aline Mariano (PP), presidente da Comissão dos Direitos das Mulheres, apresentou requerimento, em caráter de urgência-urgentíssima, para que todas as gestantes sejam dispensadas do trabalho, cumprindo a quarentena em casa. A proposta foi aprovada e encaminhada para o Gabinete de Crise da Prefeitura que, até esta primeira morte, não se pronunciou.

VIOLÊNCIA GRITANTE – O que ninguém consegue entender é como o Governo foi capaz de montar uma verdadeira operação de guerra na praia de Boa Viagem, neste último fim de semana, quando fechada para banho e caminhadas, com policiais, cães farejadores e até helicópteros, enquanto não se dá o mesmo tratamento à política de redução de crimes no Estado. Só em março, foram 307 homicídios, totalizando quase mil em um ano. “A violência mata mais do que qualquer coronavírus e fica a certeza de que o Pacto pela Vida, cantado e decantado em verso e prosa pelo ex-governador Eduardo Campos, seu idealizador, subiu no telhado”, observa o advogado Paulo Abou Hana.

ADIAMENTO – O ex-desembargador e advogado eleitoral Roberto Morais, que brotou da nação pajeuzeira para a elite do Judiciário pernambucano, sai em defesa da proposta do deputado Sebastião Oliveira (Avante) pelo adiamento das eleições com coincidência geral em 2022. “Estamos em estado de guerra. Tudo pode ser mudado, inclusive as leis e a Constituição”, diz ele. Em sua opinião, aprovar a emenda Sebá, com é conhecido o parlamentar, se faz necessário e urgente, “apesar da necessidade de ajustes na redação”, destaca. Morais lembra que até do ponto de vista financeiro o cenário para manter a eleição é complicado. “De onde viria o dinheiro? No momento, o TSE está precisando de R$ 1 bilhão somente para comprar urnas novas”, adverte.

Perguntar não ofende: O que diz a direção nacional do PT sobre os arranjos eleitorais em Pernambuco com o PSB, a quem deseja derrotar no Recife?

Publicado em: 05/04/2020