Coluna da terça-feira

Trapalhada no hospital Maria Lucinda

Diante de tudo de tudo que já se viu em Pernambuco em tempos de coronavírus, um já despertou a atenção da mídia nacional: o atestado falso para coronavírus como causa mortis do borracheiro Jacinto, levando à eternidade pela gripe Influenza, segundo nota oficial do próprio hospital Maria Lucinda, pivô da maior trapalhada da atual crise na saúde que atravessa o País sob a ameaça do Covod-19, o vírus da morte.

Na vida pública se pratica muitos crimes, inclusive o da omissão. Em se tratando de hospital, omissão remete de imediato à negativa do socorro. Mas não tem nada disso. A omissão foi praticada, no episódio em análise, pelo hospital, que até agora não deu o paradeiro da médica Ingrid Rodrigues, que assinou o atestado de óbito falso, e ao Governo, cujo representante do setor, o secretário de Saúde, André Longo, silencia.

Silêncio é sinônimo de omissão, grave pecado na vida de um cidadão. Embora o hospital Maria Lucinda seja filantrópico, tem relação com o SUS, recebe dinheiro do Estado e do Governo Federal, através de emendas parlamentares. Uma história muito mal contada. Se não, vejamos: o paciente morre, a equipe que o assiste colhe sangue para identificar a enfermidade, se conclui por gripe influenza e o atestado de óbito sai Covid-19.

No cartório, ninguém tem notícia do laudo da causa mortis. Envolvida no episódio, por sentir tratar-se de um escândalo nacional, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) postou dois vídeos em suas redes sociais desconfiando que Pernambuco seja um caso em que o número de mortes pelo corona esteja crescendo de forma manipulada, atestando o Covid-19 como causa mortis em vítimas de outras enfermidades. Com a família do borracheiro, ela conseguiu o resultado do exame para influenza, mas não o laudo do médico no qual o cartório se baseou para o atestado de óbito.

Esse laudo sumiu, a médica Ingrid Rodrigues, que assinou o atestado, também tomou Doril. Mesmo destino chamado sumiço teve o secretário estadual de Saúde, André Longo. Ao longo do dia de ontem, tentei, por várias vezes, uma entrevista com ele, deixei mensagens no seu celular, mas se recusou a falar. Certamente, deve estar com a consciência pesada pelo aval do Estado a uma trapalhada lamentável de um hospital filantrópico.

Mais uma morte – Por falar em coronavírus, subiu para seis o número de mortos em Pernambuco com a Covid-19, segundo dados oficiais divulgados ontem. Também foram registrados quatro novos casos, totalizando 77 no Estado. A nova morte foi de um homem de 62 anos, com quadro de hipertensão e diabetes. No domingo passado, eram 73 casos confirmados. Também houve dois novos casos de cura clínica, chegando a 13 recuperações. De acordo com a Secretaria de Saúde, o homem morreu no domingo. Ele deu entrada no Hospital dos Servidores do Estado (HSE) no dia 25 de março, depois de ser encaminhado por uma unidade de saúde do município de Goiana, com quadro de infecção respiratória.

Emendas como reforço – A Assembleia Legislativa confirmou que os deputados repassaram um total de R$ 62,7 milhões para as áreas de saúde e assistência social, em meio à pandemia do novo coronavírus. De acordo com a Comissão de Finanças, Orçamento e Tributação, esse valor equivale a 67,7% do total de emendas parlamentares, que totalizaram R$ 92,5 milhões. O valor de emendas remanejadas para a saúde e assistência social chegou a R$ 56,6 milhões. O Legislativo informou que todos os 49 deputados estaduais fizeram o remanejamento e repassaram recursos para essas áreas, com o “objetivo específico para o enfrentamento ao novo coronavírus”.

Monitoramento ilegal – A denúncia foi do jornal O Poder: o recifense está sendo monitorado pela Prefeitura sem autorização e isso se constitui crime. Mesmo sem se referir à reportagem do jornal, o prefeito Geraldo Júlio (PSB) confirmou que mais de 510 mil pessoas já receberam alertas, pelo celular, sobre a necessidade do isolamento social para conter a pandemia do novo coronavírus no Recife. Até ontem, segundo ele, os avisos foram vistos mais de quatro milhões de vezes pelos moradores de bairros com menor índice de isolamento social, medido por uma ferramenta de monitoramento de aparelhos. O sistema é o mesmo denunciado pelo jornal para invadir a privacidade do cidadão.

Hospital de campanha – Em Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT) resolveu construir um grande hospital de campanha num estádio de futebol, da mesma forma como vem sendo feito no Rio. No Recife, não há notícia sobre tal iniciativa, mas em Fernando de Noronha, sim. Ali, o trabalho de montagem já está de vento em popa para receber possíveis pacientes com a Covid-19, a infecção causada pelo novo coronavírus. A unidade emergencial de saúde vai funcionar no auditório da Escola Arquipélago. Inicialmente, o espaço contará com seis leitos, mas a capacidade é de até 12 pessoas em tratamento.

CURTAS

BALANÇA, MAS NÃO CAI – O ministro da Casa Civil, Walter Souza Braga Netto, garante que “está fora de cogitação” e que “não existe essa ideia” de demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O presidente Bolsonaro vem defendendo o relaxamento das medidas de isolamento social adotada nos estados e a retomada da atividade econômica, com a reabertura do comércio e volta dos estudantes às escolas. As recomendações de especialistas, da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do próprio Mandetta são de que o isolamento é necessário para evitar a expansão da pandemia. Essa postura diferenciada do ministro em relação ao chefe gera especulações de que Mandetta pode cair.

VOZ MUNICIPAL – A Frente Nacional de Prefeitos (FNP) tem dito que o presidente Bolsonaro “contraria orientações sanitárias, gerando insegurança e dúvida na população”. A FNP representa 406 cidades incluindo todas as capitais, e assim respaldada enviou novos ofícios cobrando responsabilidades, medidas oficiais do governo federal, testes rápidos para profissionais de saúde e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para os municípios. No texto, a entidade faz referência às novas posturas adotadas por Bolsonaro no fim de semana, que fez passeios pelo bairro Sudoeste em Brasília e pelo centro de Ceilândia, e vão contra as recomendações do Ministério da Saúde para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus.

INTEIRINHO DA SILVA – Inácio Manoel do Nascimento, o Nino, prefeito de Nazaré da Mata pelo PSDB, tomou um susto com sintomas do coronavírus na última sexta-feira, deu entrada num hospital do Recife para exames e ontem recebeu alta com o teste do mal negativo. Nino é bom camarada, segundo o prefeito de Tabira, Sebastião Dias (PTB). “Brincalhão e divertido, ele anima qualquer ambiente borocoxô”, diz o prefeito-poeta. Enquanto esteve internado, Nino deixou a cidade em pânico. “Mas, graças a Deus, correu tudo bem”, revela o vereador Nino Filho, herdeiro político do pai.

Perguntar não ofende: Quantos dias a mais iremos aguentar ainda em prisão domiciliar?

Publicado em: 30/03/2020