Coluna da sexta-feira

Um grande picadeiro

Dá para levar a sério um presidente que recorre a um humorista para dar entrevista em seu lugar como sinal de deboche à mídia nacional? Bolsonaro usou Márvio Lúcio, o Carioca, para dar entrevistas na saída do Palácio da Alvorada, na última quarta-feira. No momento em que apoiadores aguardavam para cumprimentar o presidente, o humorista desceu de um dos carros do comboio presidencial antes de Bolsonaro, fantasiado de presidente.

Ele tocou um minitrompete e cumprimentou os simpatizantes. Em seguida, tentou distribuir bananas para a imprensa. A cena era uma alusão a duas ocasiões em que o presidente ofendeu jornalistas que faziam perguntas a ele no Alvorada, cruzando os braços, em um gesto conhecido como “dar uma banana”. Ao parar em frente ao púlpito de entrevistas, o comediante perguntou se os jornalistas tinham perguntas a fazer.

Os jornalistas questionaram se Bolsonaro havia pedido que ele falasse com a Imprensa e Carioca disse que se tratava de um “show de humor”. Comendo a fruta, o humorista ainda insistiu se alguém faria perguntas a ele: “Aproveita!”. Diante do silêncio da imprensa, ele começou a se retirar, mas Bolsonaro chegou e o chamou. Quando os dois se aproximaram da imprensa, Bolsonaro foi questionado sobre o PIB, que cresceu apenas 1,1% em 2019, resultado pior que nos dois anos anteriores.

Bolsonaro estimulou que o humorista respondesse em seu lugar. “Presidente Bolsonaro, o senhor falará sobre o PIB?” Bolsonaro, em direção a Carioca, respondeu: “Pergunta o que é PIB. O que é PIB?” Carioca: “O que é PIB? (isso é com o) Paulo Guedes, Paulo Guedes…”. Jornalista: “A pergunta é para o presidente, não para o senhor”. Bolsonaro, sempre para Carioca: “Posto Ipiranga”. Carioca: “Posto Ipiranga”. Bolsonaro: “(Pede) Outra pergunta”. Carioca: “Outra pergunta, outra pergunta”. Jornalista: “Presidente, comenta o PIB conosco”. Carioca: “Mas é o Paulo Guedes, é Economia…”. O humorista ainda insistiu para que os jornalistas fizessem outra pergunta, mas percebendo que as respostas não viriam de Bolsonaro, os profissionais de imprensa não fizeram nenhuma. Bolsonaro então se dirigiu aos apoiadores e disse que seria exibido na TV Record um programa com ele.

Bolsonaro postou o momento nas redes sociais, sob o título “Bolsonabo no Alvorada”. Tudo isso assusta os mais desavisados? É no mínimo surreal, mas mostra também que o Governo Bolsonaro se transformou num grande picadeiro.

Palhaçada reprovada – Parte dos jornalistas que fazem a cobertura diária da saída de Jair Bolsonaro do Palácio da Alvorada viraram as costas e deixaram o local após o capitão escalar o humorista Márvio Lúcio, o Carioca, vestido de presidente, para comentar o crescimento pífio do Produto Interno Bruto (PIB). Indignado, Murilo Fernandes, da agência estadunidense Bloomberg, comentou: “Fui ao Palácio destinado a perguntar ao presidente sobre o fraco resultado do PIB. Mas eu e todos os colegas fomos surpreendidos pelo humorista Carioca, que veio em um carro junto ao comboio. Carioca nos ofereceu bananas. Bolsonaro não comentou o PIB”.

Reação dura – “O presidente da República bateu todos os recordes de desrespeito com a imprensa no Alvorada: colocou um humorista travestido de presidente para distribuir bananas aos repórteres e responder perguntas; esquivou-se assim de comentar o frustrante resultado do PIB em seu 1º ano de governo”, tuitou Fabio Murakawa, que cobre o Planalto para o jornal Valor Econômico. “Bolsonaro colocou um humorista para oferecer bananas a jornalistas e para responder perguntas. Tentamos fazer perguntas a Bolsonaro. Como ele não quis responder, viramos as costas e fomos embora”, tuitou Daniel Gulino, do jornal O Globo.

Nova agressão – Não há limites para os ataques de Jair Bolsonaro aos jornalistas. Um dia depois de ter levado um comediante para confrontar os profissionais de imprensa, ele voltou a agredir os jornalistas na manhã de ontem, nos portões do Palácio do Alvorada, antes de viajar a São Paulo: “Se vocês sofrem ataque todo dia, o que vocês estão fazendo aqui?” Em tom agressivo, reafirmou: “O espaço é público, mas o que vocês estão fazendo aqui?”

Lição de jornalismo – A jornalista Julia Lindner, de O Estado de S.Paulo, uma das ofendidas por Bolsonaro, registrou os ataques desta manhã. Ele pretendeu ainda dar uma “lição de jornalismo” aos profissionais presentes e mostrou irritação com a maneira como a imprensa registrou as cenas da véspera: “Parabéns à imprensa. Fiz piada com o PIB. Parabéns aí, valeu. Continuem agindo assim. Quando vocês aprenderem a fazer jornalismo, eu converso com vocês”, disse.

CURTAS

FILHO É PRIORIDADE – O novo superintendente da Sudene, Evaldo Cavalcanti da Cruz, revelou em rápida conversa com o Portal WSCOM, do meu amigo Walter Santos, que já está cuidando da posse para o cargo, bem como das estratégias a serem adotadas, mas na fase urgente, pois tem se dedicado ao seu filho com cardiopatia em São Paulo. Ele garantiu que tem avançado em análises e estudos minuciosos sobre as últimas medidas adotadas pela Superintendência, em especial o Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste, com seis eixos definidos.

COMPESA 1 – Sobre a informação exclusiva que dei ontem, de que Pedro Campos, o irmão do pré-candidato do PSB a prefeito do Recife, João Campos, poderia assumir uma diretoria na Compesa, uma fonte da estatal informa que ele, concursado, estaria impedido por estar em estágio probatório. Existem, na verdade, requisitos legais que são analisados para assumir uma direção em qualquer estatal. Trata-se da lei 13.303, na qual uma comissão faz avaliação. Ser recém concursado, entretanto, não implica em estágio probatório. O que pesa é a análise da experiência profissional e se a pessoa cumpre os requisitos.

COMPESA 2 – Ainda em relação à lei 13.303, ninguém faz uma análise sem ver toda a documentação da pessoa indicada para o cargo de diretor, presidente ou conselheiro de uma empresa estatal. O fato é que, com pouco mais de um ano na Compesa, Pedro Campos já ocupa cargo de confiança e seu nome vem sendo ventilado, sim, para a substituição de um diretor que está sendo fritado. Se vai poder ou não, isso será remetido a uma outra fase.

Perguntar não ofende: Ao chacoalhar jornalistas usando humoristas em seu lugar em entrevistas, o presidente Bolsonaro virou bobo da corte?

Publicado em: 05/03/2020