Por que Paulo Freire aprisiona a educação brasileira?

Por Tonico Magalhães*

Quero que alguém me explique, mas é difícil entender todos os elogios e homenagens ao educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997) por seu método de alfabetização de adultos lançado há 57 anos na cidade Angicos, sertão do Rio Grande do Norte. O método e o pensamento pedagógico de Freire, o patrono petista da educação nacional, continuam sendo um balizador educacional do País.

Informa a propaganda da época que o método alfabetizou em 40 horas 300 cortadores de cana da localidade. A maioria desses pioneiros já deve ter morrido na passagem do tempo. E não se tem conhecimento do desdobramento dos saberes desses homens e mulheres. Não saiu nenhum escritor para descrever as mazelas do rude trabalho que faziam ou um político para mudar a realidade local ou do País.

E a experiência teve o apoio do então presidente da República, João Goulart, e até do programa de Kennedy Aliança para o Progresso. Jornalistas e educadores do Brasil e do Exterior foram até Angicos para ver o “milagre”. O governador do Rio Grande do Norte da época, Aluízio Alves - depois da redemocratização foi ministro de José Sarney -, prometia 100 mil adultos alfabetizados pelo Método Paulo Freire até o final de 1963. Entusiasmo político-eleitoreiro.

Goulart levou Paulo Freire a Brasília para aconselhá-lo sobre educação. O golpe militar de 1964 encerrou as atividades de Freire na área pela influência marxista do seu método de alfabetização de adultos.  Tudo ficou nos papéis que ele levou para o longo exílio. Os resultados da experiência nunca foram avaliados no Brasil. Os “300 de Angicos” continuaram povoando o imaginário dos professores.

Freire peregrinou por universidades de vários países debatendo seu método. A Guiné-Bissau, ex-colônia portuguesa na África, depois da sua independência teve o educador pernambucano como consultor. Também pouco se sabe dos resultados. Aquele país continua como um dos mais pobres do continente africano. Na volta ao Brasil, nos anos 80, foi secretário de educação da prefeitura petista de São Paulo sem grande repercussão.

Paulo Freire foi tido pelo acadêmico da USP, Moacir Galotti, como o “guardião da utopia”, a quimera daqueles que ideologizaram a educação brasileira sintonizando-a com o passado.

Porque hoje a sintonia da educação é com o futuro, preparando nossos jovens para o mundo repleto de transformações sem precedentes  e de incertezas tão radicais, entende o professor e escritor israelense Yuval Noah Harari, autor do livro “As 21 lições para o século 21”.

O escritor não se acha profeta ou futurólogo, apenas observador do desenvolvimento rápido e transformador da Tecnologia da Informação e Comunicação. Ele diz que as escolas atuais abarrotam os estudantes de informações. E isso eles têm demais. “Eles precisam da capacidade para extrair o sentido da informação, perceber a diferença entre o que é importante e o que não é”.

Para ele, além de informação, a maioria das escola também se concentra demasiadamente em prover os alunos de um conjunto de habilidades que podem não servir para o futuro. “Não temos ideia como o mundo e o mercado de trabalho serão em 2050, quais as habilidades eles vão precisar”.

No seu livro, Harari aponta que as escolas devem focar o ensino no pensamento crítico dos alunos, na comunicação, na colaboração entre eles e no estímulo à criatividade. “Deveriam minimizar as habilidades técnicas e enfatizar as habilidades para propósitos genéricos da vida. O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar o equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares”.

No entender do escritor, essa nova visão tem uma dificuldade para ser implantada. Segundo ele, falta aos professores a flexibilidade mental que o século 21 exige, pois eles são produto do antigo sistema educacional. Todos os professores foram formados no século passado. Os mestres brasileiros ainda agregaram ao currículo uma carga ideológica dos idos paulo freireanos que freia o parelhamento com este século.

O professor Mozart Neves Ramos, ex-reitor da UFPE e hoje professor da USP, relata um fato quando era secretário de Educação do governo Jarbas Vasconcelos que revela a dificuldade para a formação dos mestres do século 21.

“Sempre que entrava numa sala de aula, costumava perguntar: quem aqui quer ser professor? Começando pelas turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental, a resposta era quase unânime: muitos estudantes queriam seguir, um dia, a carreira do magistério. Mas, à medida que ia avançando nas salas relativas aos outros anos escolares, essa resposta ia sendo gradualmente reduzida, chegando praticamente a zero. Ou seja, os estudantes iam perdendo o encanto pela carreira do professor. A pergunta que precisamos fazer é: qual é a razão do desencanto dos nossos estudantes à medida que vão crescendo”?

“Ao contrário dos estudantes dos países com melhor desempenho em educação do mundo, como Singapura, Finlândia e Japão, nenhum estudante brasileiro queria seguir a carreira do magistério! Isso é muito triste para um país que deseja ser protagonista no cenário mundial. Precisamos urgentemente tornar a carreira do magistério atrativa para os nossos jovens brasileiros. E como fazer isso”?

Para Mozart Neves Ramos, tem que se reconhecer a importância social do professor. Ele não pode ser visto no Brasil como um “coitadinho”, e sim como alguém que é estratégico para o desenvolvimento do país. Além de estabelecer um plano de carreira nacional. E melhorar a formação nas universidades brasileiras: eles saem com muita teoria e pouca prática escolar.

O passado com Paulo Freire pode ter sido importante para o imaginário da educação nacional, mas o presente e o futuro devem ser tratados com seriedade e não como uma disputa ideológica. Caso contrário nunca chegaremos ao século 21. É isso.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Publicado em: 23/01/2020