Desvio no Porto Digital socialista

Por Tonico Magalhães*

Calma, pessoal. Este comentário não trata de corrupção ou lavagem de dinheiro no parque tecnológico de Pernambuco, que faturou no ano passado R$ 1,9 bilhão, segundo seu presidente Pierre Lucena, e abriga, nas empresas embarcadas, cerca de 328, em torno de 9 mil especialistas de informática em variados graus de conhecimento. O post foca o desvio de objetivos maiores, não todos, pela administração do Porto Digital.

O porto é uma organização social (OS) que tem benefícios substanciais para fechar negócios com seus patrocinadores “masters”: a Prefeitura do Recife, o Governo de Pernambuco, a administração federal, Finep, CNPQ, Sebrae e BNDES.

Na verdade, esta OS socializou o segmento no Estado com a assinatura de contratos com os órgãos públicos, com dispensa de licitações. Preferiu o caminho mais fácil para se manter como importante parque tecnológico sem uma vontade profunda de entrar na disputa pelos mercados nacionais e internacionais de tecnologia da informação e comunicação (TIC). Pouco se sabe de ações promocionais para vender comercialmente o Porto Digital.

Ocorre que, por conta do baixo custo da mão-de-obra local especializada, o Núcleo de Gestão do Porto Digital vem registrando como vitórias e ganhos no seu portfolio a vinda de empresas de fora para contratar o pessoal daqui. Estimula a prática do chamado body shop, no qual o funcionário presta o serviço no Recife para empresas de fora e a lucratividade pela venda do produto é faturada no Exterior ou em São Paulo, por exemplo.

O Porto Digital trocou, portanto, o ambiente de negócios – onde teria chances reais de ganhos para Pernambuco – pela empregabilidade dos formados nos centros locais de excelência.

E olhe que é uma empregabilidade fajuta. Os baixos salários não atraem mais os jovens profissionais. Recentemente, o Porto Digital divulgou a possibilidade de contratação, ofertando salários entre R$ 2.500,00 e R$ 3.000,00. O público-alvo riu da proposta. Isto ganha um soldador que só faz soldar ferros. Um especialista da área tem variadas funções na TIC. Aqui se paga a metade do mercado de São Paulo, diz um trabalhador da área.

Vindo da área de Educação, Pierre Lucena – ex-reitor da Faculdade Guararapes –, disse na Folha de São Paulo, em setembro do ano passado: “ou a gente faz um grande mutirão pela Educação e pelo emprego ou a gente não vai apontar para o século 21. Não vai se colocar lá. O jogo da transformação digital está começando agora e ainda temos tempo para entrar nesse trem”.

Sintomática, a reflexão de Lucena: ênfase na Educação e não nos negócios, além de observar que o Porto Digital corre o risco de perder o trem do desenvolvimento econômico e tecnológico, entregando-se passivamente ao Poder Público.

Bem..., o Porto Digital tem assegurado outra forma de capitalização: os bens imobiliários doados definitivamente ou em comodato pelo Poder Público. Ele dispõe de 13 imóveis empresariais de porte nos bairros do Recife e em Santo Amaro. Do alto da torre do prédio que foi do Bandepe, no Recife Antigo – a jóia da coroa imobiliária do parque –, o PD cobra aluguel de espaços de cinco imóveis enquanto requalifica para a informática outros oito. Mais renda à vista.

Anos passados investiu erradamente na colocação subterrânea de tubos para cabos de fibra ótica que atenderiam as empresas do Porto Digital. Tentou vender a passagem dos cabos para as grandes operadoras de Internet por um preço absurdo. Resultado: nenhuma empresa se interessou pelo negócio e continuou a colocar cabos aéreos. Hoje, nos tubos subterrâneos, só passam baratas e ratos.

E quando o foco já está desviado não adiantam mais avisos. O ex-ministro Raul Jungmann vem trabalhando muito para trazer mais negócios para o Porto Digital. Ligado ideologicamente aos gestores do PD, só vê no serviço público a possibilidade de captação de novos contratos. Já levou em visita ao PD o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli.

Essas iniciativas socializantes não promovem o tecido empresarial e nem fortalecem quem já está instalado. Há, da parte do núcleo de gestão, um competente esforço auto-promocional da instituição Porto Digital que não corresponde totalmente à realidade. Muitas das empresas listadas no portfólio do PD são meros escritórios de representação de empresas de fora ou já não estão mais ativas.

É preciso, portanto, que os pernambucanos conheçam de perto a realidade do Porto Digital. É um empreendimento que custou para sua implantação parte do dinheiro da privatização da Celpe. Dinheiro Azul e Branco. Olho neles. É isso.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Publicado em: 16/01/2020