Acredite! Envelhecer é ver o mundo com menos pressa e mais verdade. Rubem Alves, meu cronista preferido, via a velhice não como uma “melhor idade” idílica, mas como um tempo de colheita, beleza estética, comparando-a a um crepúsculo.
Ele distinguia “idoso” (palavra de fila) de “velho” (palavra de poesia). A velhice tem a sua beleza, que é a beleza do crepúsculo, escreveu. Que profundo! Porque a beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa. “Os velhos terão rosto de criança se a criança eterna continuar viva dentro deles”, ensinou.
Ele acreditava que envelhecer bem é manter a curiosidade e a capacidade de espanto de uma criança, sem se deixar “aposentar” pela vida. Diferente da juventude, que é a estética da manhã, ele via a velhice como a beleza do fim do dia, onde se toma consciência do tempo.
Para mim, que nasci jornalista, um curioso, crítico contumaz, o passar do tempo rima com indignação. Quando já não me indignar, terei começado a envelhecer. Que importam os anos? O que importa mesmo é comprovar que, afinal de contas, a melhor idade da vida é estar vivo.
E como é bom viver! Amar alguém intensamente, amanhecer ouvindo os pássaros, dormir embriagado de amor e felicidade. Abrir um champanhe para brindar a vida. Ter a lucidez e o bom humor de um Chaplin, trabalhar até o último dia, como fez Barbosa Lima Sobrinho, o jornalista mais longevo deste país, que morreu aos 103 anos escrevendo sua coluna para o JB.
Nunca se imagine velho! Tire todos os dias esse lacro da sua vida. Poucas pessoas têm esse discernimento, poucas pessoas sabem envelhecer. Eu sou um brincalhão e levo a vida a brincar, porque não paramos de brincar porque envelhecemos, mas envelhecemos porque paramos de brincar. Minha alma é jovem, meu coração um adolescente, meu caminhar um constante renascer.
Dizem que o tempo é implacável, mas com um pouco de humor, ele fica bem mais simpático. O tempo não rouba juventude, ele revela maturidade. Feliz é quem envelhece com histórias para contar, e não com mágoas para guardar. Saía por aí contando seus feitos, seus golaços de felicidade, sua alegria, combustível eterno da felicidade.
Seja um Ariano Suassuna, que abominava eufemismos como “terceira idade”. Ele orgulhava-se de ser velho e via a idade avançada como um privilégio. Mario Quintana via o passar do tempo com leveza, ironia e sensibilidade, transformando a velhice em uma fase de liberdade poética.
José Saramago, em reflexões, desafiou a contagem dos anos, defendendo que a idade é aquela que sentimos e escolhemos ter, focando na vitalidade interna. Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles em suas poesias olharam para o envelhecer como parte da construção poética da existência humana, desnudando o cotidiano.
Paulo Freire enfatizou a importância de “não deixar envelhecer o menino” que fomos. Platão, por sua vez, enxergava a velhice como um momento que proporciona paz e libertação. Sêneca, filósofo estoico, escreveu que a velhice é abundante em prazeres se soubermos amá-la, sendo um estado de repouso e liberdade.
Rachel de Queiroz também nos deixou boas lições da velocidade do tempo: “Ao longo dos anos a gente fica mais tímido, mais medroso. Aquela audácia, aquela petulância de quando se é jovem se perde quando se criam laços afetivos. Dá uma certa humildade o conhecimento do mundo.”
Cora Coralina, que leio sempre para rejuvenescer, defendia não ter medo dos anos, manter a mente ativa (lendo e se atualizando), produzir sempre, evitar a inércia e manter uma postura positiva, sem se autodenominar velha ou cansada. “Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo para você, não pense”.
A velhice foi retratada em sua obra como uma época para usar a sabedoria adquirida e como um momento de libertação, ao invés de uma prisão. Cora Coralina vivenciou uma “velhice ativa”, transformando a fase em um período de criatividade e força, sendo um exemplo de envelhecimento saudável e produtivo.
Pense, enfim, num detalhe: existe uma fonte da juventude — é a sua mente, os seus talentos, a criatividade. Pense nisso e bola pra frente!
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