FMO janeiro 2020

01/08


2020

Que agosto seja o mês dos bons gostos

Agosto descortinou. Lá no meu Pajeú descortinar é abrir a cortina para o público apreciador da sétima arte. Quando se abre a janela, fechada para o sono dos justos, também se descortina o mundo, a vida. Minha mãe me descortinou num 23 de agosto, de parto normal como normais foram todos os berros do "vim ao mundo" dos demais oito irmãos, todos pajeuzeiros, batizados no rio que vai bater no Riacho do Navio.

Que agosto seja abençoado e não de desgosto. Mesmo que você não seja supersticioso, certamente já ouviu falar que agosto é o “mês do desgosto”. É o tipo de coisa que as avós falam quando julho acaba. E essa má fama é bem mais antiga do que os nossos avôs, mas pouca gente realmente sabe qual a sua origem.

Fui pesquisar. Na verdade, há mais de uma explicação para essa crendice tão popular e ela não existe só aqui no Brasil. No século 1, os antigos romanos já temiam o mês de agosto, por acreditar que, nessa época, um dragão cuspindo fogo aparecia no céu durante a noite. Seria um dos filhos de Daenerys Targaryen? Nada disso. Era apenas a constelação de Leão, que fica mais visível durante o período do ano. 

Pulando alguns vários séculos, a clássica rima “agosto é o mês do desgosto” surgiu em Portugal, durante a época dos descobrimentos. Originalmente, a expressão era “casar em agosto traz desgosto”, pois as caravelas costumavam partir para o Novo Mundo nessa época. Aí, quem se casava em agosto acabava nem fazendo lua-de-mel e as noivas corriam o risco de tornarem-se viúvas antes mesmo de aproveitar a fase inicial do casamento.

Não sei se uma coisa tem a ver com outra, mas muitas notícias ruins já encheram a mídia de manchetes nos agostos da vida. No dia 2 de agosto de 1934, Hitler tornou-se líder da Alemanha – e todo mundo sabe no que isso resultou. Já em 6 e 9 de agosto de 1945, Hiroshima e Nagazaki foram atacadas pelas bombas atômicas, culminando numa das tragédias mais emblemáticas do século 20.

Aqui no Brasil, dois episódios políticos muito marcantes também aconteceram nesse mês. No dia 24 de agosto de 1954, o então presidente Getúlio Vargas cometeu suicídio. Já em 21 de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à Presidência. Bateu na trave do meu 23 de agosto. Para mim, mês do aniversário, a data que se celebra a chegada ao mundo, é motivo de júbilo, de comemorações. Quem pelo menos não faz um brinde no seu niver não tem a exata noção do significado da vida.

Meu pai ama a vida, mas nunca gostou de aniversários, de comemorações. Quando organizei a grande festa dos seus 90 anos, ouvi o coração dele pulsar. Me disse que não entendia o porquê de todos comemorar aniversário. Comemorar o quê? Um ano a menos de vida? Um ano a menos com quem você gosta? Um ano a menos para realizar sonhos? "Ninguém repara que isso é uma contagem regressiva", me advertiu.

Ele tem lá suas razões, mas nisso eu sou diferente. Comemoro a maravilha de viver. Dou uma festa. É o meu aniversário! Tiro os sonhos de dentro do armário. Reparo como o tempo faz mágica. Penso nos velhos tempos. Viro uma página da vida. Não é só mais um ano que comemoramos e sim a dádiva que Deus deu a nós, a família e amigos que conquistamos ao longo desses anos.

Ainda sobre a filosofia de vida de papai, compreendo que ele sempre é daqueles que entendem que o décimo sétimo aniversário se espera ansioso para comemorar o próximo. Depois de alguns anos, chegou a hora de rezar desesperadamente para que o tempo pare. 

Para saudar o meu agosto do gosto e não do desgosto celebremos hoje como poetizou Vinicius ao falar do amor: eterno enquanto dure. É do poetinha que morreu de amor o ensinamento também de que a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo.

Como nunca mais.

Viva agosto!


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