Lula culpa PT pelas chances de segundo turno

 Do blog de Josias de Souza, da Folha de S. Paulo: ''Um auxiliar de Lula discou para o apartamento dele em São Bernardo na noite passada. Veio ao telefone um presidente irascível. Acabara de assistir ao Jornal Nacional. Mostrava inconformidade com o resultado das pesquisas Ibope e Datafolha. Culpou o PT pelas adversidades que arrosta nesta fase final da eleição.

Como de hábito, Lula expressou-se por metáforas. Inovou. Em vez das translações futebolísticas, que costuma preferir, recorreu a imagens automobilísticas. “A gente dá 50 voltas no autódromo, conduz o carro com todo o cuidado, abre uma enorme vantagem sobre os adversários e, na última curva, vem o nosso próprio pessoal e joga óleo na pista. Isso tem nome. É sabotagem.”

Referia-se ao caso do dossiêgate. Atribui ao episódio a derrapagem temporã nas sondagens eleitorais. A hipótese de a eleição escorregar para o segundo turno, esboçada nos números das pesquisas, deixou Lula inconformado. As expressões de calão raso que utilizou no diálogo da noite passada não deixaram dúvidas quanto ao grau de irritação do presidente.

Referiu-se de forma desairosa às genitoras dos “aloprados”, como se refere aos petistas que arrastaram o comitê reeleitoral para o submundo da compra do dossiê contra políticos tucanos. Mostra-se convencido de que “tem dedo de tucano” por trás de Luiz Antonio Vedoin, o chefão da máfia das sanguessugas, homem que levou o dossiê ao balcão.

Para Lula, a equipe de “inteligência” de sua campanha, por “burra”, caiu numa armadilha montada por emissários do tucanato. O presidente menciona, não se sabe se baseado em informação privilegiada ou em intuição pessoal, o nome de Abel Pereira. Trata-se de um empresário ligado a Barjas Negri, prefeito de Piracicaba (SP) e sucessor de José Serra no Ministério da Saúde, sob FHC. Diz que foi Abel, em conluio com Vedoin, quem “armou a cama para o PT deitar”.

O interlocutor de Lula pediu calma ao presidente. Disse que “pesquisa não é urna”. Tentou infundir confiança na alma do chefe. Afirmou que, a despeito da quadra adversa, pressentia o triunfo em primeiro turno. “Deus te ouça”, reagiu Lula. “Com os aliados que temos, só mesmo apelando para Deus.”

Antes de repor o telefone no gancho, o presidente deu mostras de que não entregou os pontos. Pediu “empenho à tropa.” E disse que não pretende dar a “essa gente”, como se referiu ao tucanato, “esse gostinho [da vitória].” Comparou-se a uma planta resistente e espinhenta, encontradiça no sertão nordestino: “Eles estão lidando com um cáctus”.

Publicado em: 01/10/2006