Assistencialismo eleitoreiro e omissão do Estado

Revista ÉPOCA

 As mortes de Marcos Paulo, Wellington e David, os três jovens do Morro da Providência presos por militares, torturados por traficantes e executados com 46 tiros, são a nota trágica de um projeto que nasceu torto e cresceu alimentado por padrinhos ilustres nos bastidores do Palácio do Planalto. Se hoje ele produz um escândalo atrás do outro é porque, desde sua origem, contou com uma combinação de fatores condenáveis: assistencialismo eleitoreiro, arrogância das Forças Armadas e omissão do Estado.

Foi por causa de uma manobra do governo federal que o senador Marcelo Crivella (PRB) conseguiu tirar do papel seu projeto para reformar casas em favelas do Rio de Janeiro antes que ele recebesse a aprovação do Senado. Em setembro de 2007, Crivella propôs a emenda que criava o projeto Cimento Social. No Senado, o documento continua nas mãos do relator, Almeida Lima. Para garantir a verba a tempo de o programa ser usado na campanha eleitoral, o Planalto “adotou” o Cimento Social. Sem usar esse nome, ele foi incorporado pelo Ministério das Cidades. Menos de dois meses depois de Crivella apresentar a proposta ao Senado, o Ministério liberou quase R$ 2 milhões para acelerar as obras. Um “milagre” de superação da burocracia operado por aquele que se diz ex-bispo.

O Cimento Social entrou de carona na Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU), do Ministério das Cidades, depois de um encontro entre Crivella e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Numa portaria publicada no Diário Oficial da União em 30 de outubro de 2007, o ministério informou que o dinheiro se destina a “obras de revitalização das fachadas e dos telhados da comunidade da Providência”, mesmos objetivos do projeto do senador.

Publicado em: 29/06/2008