O Paraguai é aqui. Ainda bem que eles ousaram mudar

            ( João Capiberibe)

No Brasil pouco se falou das eleições no Paraguai, estranhamente estávamos ocupados em não perder um só lance das eleições americanas, mesmo sabendo que elas só ocorrerão no final do ano. Já nossos vizinhos, ao longo da campanha, não nos deram trégua.
 
Primeiro, se recusaram a continuar usando nossas “invioláveis” urnas eletrônicas. Após experimentá-las em vários pleitos, chegaram à conclusão de que não são tão seguras como se apregoa e decidiram retornar à cédula em papel, onde o eleitor sabe exatamente em quem está votando. As eleições transcorreram na maior tranqüilidade e o sistema foi considerado excelente.
 
Outro tema relevante que nos diz respeito, muito debatido no processo de campanha, foi a questão Itaipu Binacional.
 
Quem levantou a questão? Ora, exatamente o presidente eleito Fernando Lugo. Isso sim, passou a fazer uma enorme diferença e finalmente, meio a contragosto, passamos então a ouvir falar dos resultados das eleições no Paraguai.
 
“Cambio”, a palavra mágica e silenciosa do povo paraguaio, chegou até nós, mudou lá e essa mudança tem efeito aqui, tal qual os bolivianos, eles querem e conquistaram o direito de serem levados a sério, pretendem renegociar o contrato da hidroelétrica de Itaipu, onde a metade da energia lhes pertence.
 
Como não têm em que usar, são obrigados a vender por força de contrato exclusivamente ao Brasil, claro, por preço que o Brasil se disponha a pagar. A energia excedente dos paraguaios é vendida ao consumidor brasileiro, se lá eles reclamam que recebem ninharia pela energia fornecida, aqui é o contrario, reclamamos do preço alto de nossa de conta de luz, portanto, resta saber afinal, quem está lucrando a custas de paraguaios e brasileiros. 
 
Isso me faz lembrar a hidroelétrica de Tucuruí na Amazônia, onde a energia é fartamente utilizada pelas indústrias de eletros-intensivos, como a Alumar e a Alunorte, a preços bem camaradas, enquanto o consumidor da região paga tarifa cheia.
 
Enquanto essa energia subsidiada pelos contribuintes brasileiros é exportada em forma de barra de alumínio, nós da Amazônia pagamos energia cara ou vivemos mergulhados na escuridão e no atraso por falta de rede de transmissão.
 
Como diria Caetano, o Paraguai é aqui. Ainda bem que eles ousaram mudar.

 

Publicado em: 27/04/2008