Bolsonaro na ONU: Apenas uma referĂȘncia aos 138 mil mortos

Por Fernando Castilho

O presidente Jair Bolsonaro abriu a 75ª sessão das Nações Unidas.

Gesto conferido ao Brasil pelas articulações do então ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, logo depois do fim da II Guerra Mundial, em 1945, o discurso é um momento mágico para o país nem sempre bem aproveitado pelos presidentes sob as luzes do mundo.

O presidente Jair Bolsonaro leu um texto de 1.700 palavras e 11 mil caracteres. Mas perde tempo quem for procurar palavras de respeito pelos 138 mil mortos que o Brasil registrou até agora além de um burocrático “lamentar cada morte ocorrida”.

Aliás, a palavra morte está escrita apenas uma vez relacionada a covid-19. Mas usou hidroxicloroquina para se queixar dos preços que subira 500%. O presidente preferiu listar suas ações. Mas o fez como confronto ao que ele mesmo criou sobre o vírus e o desemprego, e que segundo ele, “ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade”.

E mais uma vez ele se queixou da “parcela da imprensa brasileira” que segundo ele “também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema “que em casa” e “a economia a gente vê depois”, quase trouxeram o caos social ao país”.

O presidente tem dificuldades, desde o começo da pandemia, de entender a dimensão social da covid-19 para o futuro do país e da própria humanidade em relação a questão da vida das pessoas. Isso está presente no discurso quando diz que graças a uma decisão judicial [do STF], todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação.

Bolsonaro, de fato, não percebeu que não fosse sua posição radical contra a ideia do “que em casa” poderia hoje estar surfando na onda de ter autorizado uma colossal transferência de recursos (R$ 600 bilhões) para salvar a economia.

E o mais curioso é que ele fez. Tipo: está bom, eu pago a conta, mas vocês escolheram o bar errado.

E no seu discurso na ONU, prestou contas dessas ações de uma forma tão burocrática que não conseguiu dizer que o Brasil, um país com enormes dificuldades econômicas, enfrentou a convid-19 gastando o que não tinha, para além de tratar as pessoas tentar não permitir que elas morressem de fome.

É impressionante como ele ainda não tem a dimensão de como foi importante para o Brasil gastar esse dinheiro todo e como, negando a ciência, não capitalizou as ações de seu governo e dos estados com o dinheiro que ele transferiu para salvar vidas e a economia.

Mas é preciso não esquecer o fato histórico. Quem politizou a covid-19 foi ele. Pagou a conta, mas politizou e o fez isso segundo uma visão errada da questão. Ora, se ele iria pagar a conta, porque não aproveitar o bônus da assinar o cheque. O Brasil entregou “aproximadamente 1.000 dólares para 65 milhões de pessoas”, mas, ele não percebeu a dimensão dessa transferência de renda.

Bolsonaro só percebeu o impacto disso quando viu sua popularidade subir no Nordeste que – como ele mesmo dizia – era um reduto do PT e de governadores de esquerda. E aí decidiu dar a larga na campanha de 2022.

Mas o problema de Bolsonaro é que ele mistura dados bons com conceitos ruins e os seus auxiliares também não ajudam muito.

É verdade, como disse no discurso. O país produz “alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado”. Assim como é verdade que somos líderes em conservação de florestas tropicais.

E também é verdade que temos a matriz energética mais limpa e diversificada do mundo. Mesmo sendo uma das 10 maiores economias do mundo, somos responsáveis por apenas 3% da emissão de carbono. E que o mundo cada vez mais depende do Brasil para se alimentar. Tudo isso é fato.

O problema é que ele logo a seguir ele diz que a floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Que os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação. E que as grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local.

O presidente está querendo enganar a quem quando diz na ONU que os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação? A si mesmo? Bom, sempre se diz que todos os presidentes não falam na ONU para o mundo, mas para seus eleitores.

E porque diabos dizer que o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle? Talvez para agradar ao presidente Trump, a quem atribui “uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino?”

Pode ser. Talvez porque o Brasil, “finalmente, abandona uma tradição protecionista e passa a ter na abertura comercial a ferramenta indispensável de crescimento e transformação” um discurso mais uma vez alinhado com sua indisfarçável admiração pelo presidente americano que, também pela tradição da ONU, é o orador seguinte na solenidade virtual da ONU.

Fazer o quê se ele gosta de Donald Trump e faz questão de dizer isso até na ONU?

Publicado em: 22/09/2020