A Revolta da Vacina

Por Jose Adalbertovsky Ribeiro*

MONTANHAS DA JAQUEIRA – Alvíssaras! Anunciada uma vacina para estancar o flagelo de doenças infectocontagiosas no Distrito Federal e em todo o País. Foi decretado o estado de sítio, medida autoritária considerada inevitável para o bom êxito da campanha de vacinação. As ruas pestilentas da cidade afugentavam os estrangeiros e mortificavam os nativos. Além das doenças foram constatados focos de inflamações políticas entre os micróbios.  

O pau cantou por conta da obrigatoriedade da vacina. A mundiça montou barricadas no Distrito Federal. O noticiário informa sobre centenas de prisões de desordeiros na Ilha das Cobras (RJ), dezenas de mortes, centenas de feridos e deportação de radicais para o território do Acre. Os desordeiros protestam contra a aplicação obrigatória da vacina.  Desde sempre os micróbios políticos causam discursos inflamados. Depois do quebra-quebra o estado de sítio foi suspenso e a obrigatoriedade revogada.   

 Túnel do tempo: Refiro-me à momentosa Revolta da Vacina, tempos da epidemia de febre amarela, surtos da peste bubônica e varíola, no inicio do século passado, no então Distrito Federal, Rio de Janeiro. Além das doenças, havia surtos de resistência política contra a ainda adolescente República, casos de amores mal resolvidos vindos da Monarquia extinta no final do século passado.

Nomeado pelo presidente da República, Rodrigues Alves, chefe da Diretoria de Saúde Pública, cargo equivalente hoje ao de ministro da Saúde, o médico sanitarista e cientista Oswaldo Cruz assume a missão heroica de erradicar as doenças.  O doutor Oswaldo pairava acima das mesquinharias políticas e inumanidades.

O Distrito Federal era uma cidade infectocontagiosa. As ruas viviam povoadas por ratos, mosquitos, piolhos, e também por  politiqueiros. A opinião pública, como sempre, era apenas massa de manobra, bovinos e equinos.   

Republicanos acusavam a vacina de ser monarquista. Os monarquistas rebatiam: é golpe. Havia borbulhas de amor pelo saudoso Imperador Dom Pedro 2º. Os oposicionistas propagavam: mais uma pessoa foi contaminada pelo mosquito republicano Aedes aegypti e a culpa é do presidente Artur Bernardes. Força, Aedes! Diziam os locutores.

Dia seguinte os republicanos rebatiam através das redes sociais nas rádios difusoras: o mosquito Aedes aegypti é militante das hostes monarquistas e divulga fake news. Em nome das true news informamos que a vacina contra a varíola, descoberta pelo Lorde inglês Edward Jenner em 1796, é uma conquista da humanidade e deve ser aplicada para erradicação de tal flagelo. Graças aos céus e ao cientista inglês a varíola foi erradicada do planeta em 1980.     

Vitória! O infeliz mosquito Aedes aegypti, transmissor da febre amarela, foi exterminado na época graças ao trabalho sanitário do doutor Oswaldo Cruz, benemérito da humanidade. Mas as autoridades sanitárias deram bobeira e o bicho ressuscitou nos tempos recentes, vindo a propagar a dengue. 

*Jornalista. E-mail: joseadalbertoribeiro@gmail.com.

Publicado em: 07/09/2020