Coluna da quinta-feira

Só Marília pode salvar PT no NE

Quando o ex-presidente Lula saiu da prisão, em novembro do ano passado, o PT imaginava que sua militância voltaria a se eletrizar e o partido sairia da lona moral em que foi jogado pela operação Lava Jato. Seria um renascimento, no qual a disputa eleitoral funcionaria como uma fonte da juventude. Deu tudo errado. O partido tem a maior bancada da Câmara, com 53 deputados, mas deve levar uma surra nas eleições municipais deste ano. O partido aparece como favorito em apenas duas capitais: Recife e Vitória, segundo análise do jornalista Mario Cesar Carvalho, do site Poder360.

Se esse resultado vingar, será o dobro do que o PT conquistou em 2016, quando elegeu apenas o prefeito de Rio Branco (AC). Vamos combinar que é uma porcaria segundo a própria métrica do PT, que se autointitula o maior partido de esquerda da América Latina. Lula anunciou a seu círculo que o PT deveria ter uma meta ambiciosa para as eleições municipais de 2020: recuperar o número de vereadores eleitos em 2012. Naquele ano, no auge do lulismo, o partido elegeu 632 prefeitos e 5.128 vereadores.

Quase 1/3 dos eleitos abandonou o barco petista quando o lança-chamas da Lava Jato avançava sobre alguns caciques do partido. Na eleição de 2016, com a Lava Jato bombando nas TVs e um impeachment para lá de controverso de Dilma, o partido elegeu apenas 256 prefeitos e 2.808 vereadores. Para cumprir o desejo de Lula, o PT precisa mais do que dobrar o número de prefeituras, uma meta aparentemente impossível no cenário atual.

Lula quer porque quer que o partido volte ao nível de 2012, mas não consegue ver movimento concreto algum para que isso deixe o terreno da fantasia. Veja os casos de São Paulo e Rio de Janeiro, as duas principais cidades do país. O PT escolheu Jilmar Tatto, um daqueles burocratas sem voto, para concorrer em São Paulo; no Rio, a candidata será Benedita da Silva, que tem como marca registrada uma passagem desastrosa pela prefeitura carioca. Não é preciso ser o gênio da lâmpada para sentir a fragrância de derrota no ar.

São desastres anunciados. Toda semana petistas anunciam que estão embarcando na candidatura do Psol, na chapa formada por Guilherme Boulos e Luiza Erundina. Nos dois casos, foi Lula quem ordenou que o partido não se aliasse com ninguém no 1º turno. O PT, segundo ele, deveria ter cabeças de chapa nas principais capitais para colocar o partido na vitrine. Uma exceção será Porto Alegre, onde o diretório municipal do PT aprovou em maio o apoio já no 1º turno à deputada Manuela D’Ávila (PC do B), com o petista Miguel Rossetto de vice. O problema é que essa vitrine se quebrou e não há ninguém no partido com ideias e poder para consertar o estrago.

Imperial – Lula comanda o PT com estilo imperial há cerca de 40 anos. Desde que foi condenado pelo então juiz federal Sergio Moro, o partido adotou o discurso de uma nota só, o de que Lula é inocente. A condenação do ex-presidente teve de fato elementos que mais lembram uma caçada do que uma ação da Justiça. O discurso de uma nota só pode ser ótimo para Lula, mas tem o risco de acelerar a marcha do partido para a insignificância. Seria um desastre para a democracia que o país deixasse de ter um partido de esquerda organizado, para defender pautas sociais no país da desigualdade monstruosa.

Letargia – O PT, por sua vez, insiste em ignorar provas de corrupção da Lava Jato durante os governos de Lula e Dilma. A Lava Jato cometeu irregularidades em série, mas há casos incontestes de propina. O presidente Jair Bolsonaro parece ter percebido essa letargia do PT e está avançando sobre o que já foi a maior fortaleza do partido, os beneficiários do programa Bolsa Família. Ele aproveitou a pandemia para carimbar o auxílio emergencial de R$ 600 como obra dele – a proposta inicial do governo era de R$ 200; foi o Congresso que elevou o valor. Como tem mostrado as pesquisas do PoderData, é esse o maior capital político de Bolsonaro. A aprovação do presidente entre os beneficiários do auxílio é de 50%, de acordo com levantamento da 1ª semana de agosto. Já entre a população como um todo esse índice cai cinco pontos percentuais.

Revelações de Temer 1 – Em entrevista, ontem, ao Estadão, o ex-presidente Michel Temer (MDB) falou da sua reaproximação com Bolsonaro, que começou depois da live neste blog quando afirmou que ficaria lisonjeado em integrar um Conselho de Notáveis na estrutura de assessoramento direto do presidente. “O presidente Bolsonaro nunca criticou o meu governo, pelo contrário. Em várias oportunidades, eu o via dizendo: 'Se não fosse o Temer ter feito a reforma trabalhista, ter enfrentado a Previdência, a gente não teria ido a lugar nenhum”, afirmou ao seu perguntado como se sentia como prestando serviços a um Governo como ex-chefe da Nação.

Revelações De Temer 2 – “Ele sempre fez referências elogiosas ao meu governo. Não tenho tanto contato com ele. Tive uns três contatos ao longo do tempo. Ele deve ter ouvido entrevistas em que dou palpites. Digo: 'Olha, aquela coisa de falar na saída (do Alvorada) não é boa, porque é a palavra do presidente faz a pauta do dia'. Creio que, às vezes, ele possa ter levado isso em conta. Mas é um contato cordial, tanto que ele me convidou. Aliás, é uma coisa muito típica nos EUA. Não é incomum que presidentes peçam para ex-presidentes realizarem missões humanitárias”, acrescentou Temer, complementando: “Tenho como método fazer observações com cautela. Ex-presidentes, ao meu modo de ver, devem ser discretos com relação ao presidente. Se não você não ajuda o País. Eu faço observações, críticas, muitas vezes, mas a título de colaboração, não de oposição”.

CURTAS

VERGONHA – Além de ter fugido da sessão da Câmara destinada a instalar uma CPI para apurar corrupção na gestão da prefeita Madalena Brito (PSB) em Arcoverde, a presidente da Câmara, Célia Galindo (PSB), teve a cara de pau de passar por cima do regimento interno da Casa e da Constituição ao anular, via decreto, a CPI aprovada em plenário, pela maioria dos seus integrantes, destinada a investigar corrupção no Governo da sua aliada. Mas a oposição cochilou e não entrou com mandado de segurança para tornar sem efeito o ato da presidente. Sua decisão, arbitrária e inconstitucional, virou mote de galhofa pelas redes sociais sugerindo um compadrio dela com a prefeita. Parodiando Boris Casoy, isso é uma vergonha!

FACADA NA GLOBO – Na edição de ontem, a Folha de S. Paulo trouxe matéria a respeito do rateio de verbas do Governo Federal às TVs. De acordo com os jornalistas Fábio Fabrini e Julio Wiziack, o TCU (Tribunal de Contas da União) identificou falta de critério técnico na mudança da divisão das verbas oficiais investidas nas principais emissoras. A Globo foi a que mais perdeu. Apesar de ser líder em audiência, com média diária de público maior do que a Record e SBT juntos, o canal carioca teve a participação reduzida de 39% para 16%, queda de quase 60% na comparação entre 2018 (sob a gestão de Michel Temer) e 2019 (ano do primeiro mandato de Jair Bolsonaro).

Perguntar não ofende: Bem-sucedido na missão ao Líbano, Michel Temer pode assumir um Ministério no Governo Bolsonaro?

Publicado em: 12/08/2020