Coluna da quarta-feira

Gestão calamitosa da pandemia

Tem razão o ex-ministro Armando Monteiro Neto quando diz que se Pernambuco fosse um País seria o segundo maior do mundo em óbitos pela Covid-19 em razão da má gestão, no descompasso na saúde, nos desencontros de medidas anunciadas e mal conduzidas, em intervenções desnecessárias e, principalmente, pela má intenção no gerenciamento do dinheiro público enviado pelo Governo Federal para o combate à pandemia do coronavírus.

De todos os pontos destacados por Armando o mais grave, sem dúvida, é o que ele classifica de desvio de conduta ética na gestão dos recursos federais destinados à pandemia do coronavírus. “As denúncias foram surgindo de várias origens e imediatamente os contratos foram desfeitos, o que significa dizer que eram frágeis. Em alguns casos, se apressaram a devolver os recursos. Um gestor que tenha convicção da lisura dos seus contratos não recua, pelo contrário se sustenta”, constata. Para Armando, Geraldo tem que mostrar à população que os contratos se justificaram.

“Mas, em Pernambuco não. Qualquer denúncia, os contratos eram desfeitos. Recife é uma capital que gastou muito e houve uma série de denúncias. Eu fico nisso, pois é um juízo factual. Mas ilações podem ser feitas, mas eu não faço”, acrescentou o ex-senador quando perguntado se desconfiava de que esses recursos federais estavam sendo desviados para caixa de campanha. Ao longo da entrevista que concedeu ontem ao Frente a Frente, Armando descambou para o campo da própria gestão de Geraldo com duras críticas.

“Aqui, no Recife, com Geraldo, tivemos os problemas de mobilidade urbana agravados. Há equipamentos mal conservados, obras que se arrastam há muito tempo. A reforma do Geraldão já dura mais de 10 anos. Que gestão é essa? Agora, Geraldo tem algo que ele faz bem: propaganda na televisão. A mistificação. Gasta muito dinheiro em propaganda, instalou o chamado marketing da pandemia. Aproveitou esse momento de grande angústia, para apresentar um quadro de muitas ações, providências, que, na realidade, se traduz em mera espuma”, afirmou.

E acrescentou: “Por exemplo, quantos hospitais de campanha Geraldo implantou? Que serventia esses hospitais tiveram? E aquelas camas podem se considerar leitos clínicos? O que todo esse investimento resultou? Enquanto isso, muitos profissionais de saúde nem equipamento de proteção individual tiveram. Esse segmento, sim, deveria ter sido mais bem cuidado. Essas administrações gostam de mostrar prédios, de fotografar unidades de campanha, em suma, a gente fica com a impressão que serve só aos programas eleitorais, lamentavelmente”.

Efeito Bolsonaro – Armando também deu sua visão sobre o efeito Bolsonaro nas eleições municipais. “Eu acho que Bolsonaro é, hoje, num país polarizado, um eleitor importante. Não há dúvida que o auxílio emergencial, pela dimensão, tem um impacto muito grande na vida das pessoas carentes, principalmente. Você, que é um homem que anda pelo interior, sabe o que isso significa. Eu escuto depoimentos de pessoas do pequeno comércio do interior que em plena pandemia, seus negócios aumentaram por causa da renda que foi proporcionada pelo auxílio. Eu fiz até o cálculo. Quando for paga a quinta parcela, Pernambuco terá recebido R$ 13 bilhões. No Brasil, já foram R$ 250 bilhões, 5% em Pernambuco. Então, é evidente que isso tem reflexo político”.

Queda industrial– Pernambuco teve um crescimento de 3,5% na produção industrial, entre maio e junho, de acordo com os números divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o órgão, a variação, apesar de positiva, é menor que a média brasileira, de 8,9%, e que a de toda a região Nordeste, que teve 8% a mais, entre os dois meses. Comparando-se o mês de junho de 2020 com o mesmo período em 2019, houve um aumento de 2,8%. O desempenho foi melhor que o do Brasil, que teve queda de 8% entre os dois anos. Na relação entre o primeiro semestre deste ano com o anterior, a queda em Pernambuco foi de 3,6%.

Sócios da tragédia – A Secretaria de Governo distribuiu um relatório a aliados do presidente Jair Bolsonaro em que destaca nominalmente governadores e prefeitos das regiões brasileiras em que há maior incidência e mortes pela covid-19 no País. Os dados são de 8 de agosto de 2020, data em que o País ultrapassou a marca de 100.000 mortos pelo novo coronavírus. O relatório apresenta um ranking dos cinco Estados mais afetados pela pandemia. São Paulo, unidade federativa governada por João Doria (PSDB) – desafeto de Jair Bolsonaro – encabeça a lista. Foram novos 13.352 casos no último sábado.

Dória na liderança – O Estado de São Paulo, gerido pelo tucano João Dória, também aparece na frente do ranking de novos óbitos: 281, em 8 de agosto. O relatório, porém, não informa que se trata de números absolutos. Desconsidera a taxa de mortos e casos por 100.000 habitantes. Em seguida a São Paulo, aparecem no ranking de novos casos Rio Grande do Sul, Bahia, Minas Gerais e Santa Catarina. Os Estados são governados, respectivamente, por Eduardo Leite (PSDB), Rui Costa (PT), Romeu Zema (Novo) e Comandante Moisés (PSL). Moisés, porém, é nominado apenas a palavra “comandante” no documento.

CURTAS

PASTOR EXTRAVAGANTE – Mesmo com uma dívida de mais de R$ 429,8 milhões, o pastor carioca Marcio Pôncio exibe uma vida de luxo em Duque de Caxias, interior do Rio. Recentemente, segundo o jornal Extra, ele se presenteou com um helicóptero de R$ 61 milhões pelo aniversário de 47 anos. Em maio, o juiz federal Eduardo Horta, da 2ª Vara Federal de Duque de Caxias, mandou publicar em edital a execução fiscal de quase R$ 430 milhões citando o pastor, o seu sócio Marcello Araújo dos Santos e a empresa New Ficet Indústria e Comércio de Cigarros e Importação e Exportação Ltda por impostos devidos à União. Os sócios chegaram a pedir a revisão dos cálculos e valores, o que foi negado no último dia 3.

LIVE DE HOJE – A advogada criminalista carioca Maíra Fernandes é uma das mais credenciadas defensoras dos direitos humanos no País. É a convidada da live de hoje, às 19 horas, pelo Instagram deste blog. Ninguém conhece como ela alternativas para melhoria da política prisional, investimento pelos estados em modelos de apoio aos detentos, como associações de proteção e assistência a condenados e colônias agrícolas. É grande estudiosa das legislações sobre drogas. Acha que deixar que o policial decida se a quantidade de droga apreendida configura tráfico ou uso, sem tabela de quantidades, dá margem a arbitrariedades e defende a criminalização das drogas no País. Se você ainda não segue o Instagram do blog, anote o endereço: @blogdomagno.

Perguntar não ofende: Penta em operações da Polícia Federal, Recife é vice-líder em mortandade pela Covid por incompetência?

Publicado em: 11/08/2020