A volta eterna dos que nunca vão

Por José Nêumanne*

“O mito é o nada que é tudo”, verso do poema Com quantos mitos se faz uma realidade?, do gênio português Fernando Pessoa, poderia ser a epígrafe deste texto. Mas este autor preferiu explicitá-lo na abertura do primeiro parágrafo para dele retirar qualquer aspecto acadêmico. Aqui se constatam fatos, não conceitos.

Mito é a palavra ideal para definir o presidente Jair Bolsonaro, não por seu sentido místico, religioso ou mesmo de fábula, mas, sim, pelo significado corriqueiro do vocábulo dicionarizado: mentira. Por isso, seus adversários introduzem o ene no meio para lhe dar o sinônimo exato, embora, em sua má-fé ignorante, pouco ilustrados o usem como antônimo.

É sabido que o capitão cloroquina cometeu grosseiro estelionato eleitoral por ter ludibriado o cidadão com a ilusão de que ele seria um político acima de qualquer suspeita, algo raríssimo, encarregado de renovar a política corrupta brasileira, fortalecendo o combate à corrupção, ou seja, a Lava Jato. O estelionato foi confirmado pela nomeação do ex-juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Mas o único presidenciável com chances em 2018 sem conexão com a bilionária corrupção das empreiteiras e estatais tem raízes fincadas no mais rastaquera e abjeto, embora menos volumoso, método de dilapidação do erário. A quebra do sigilo do faz-tudo da famiglia, Fabrício Queiroz, expôs todas as evidências de que, por intermédio da própria mulher, Michelle, e do primogênito, Flávio, ele pode ter um elo íntimo com quatro tipos de malversação das verbas públicas: peculato (contratação de funcionários-fantasmas, que devolvem a parlamentares praticantes a parte do leão de seus vencimentos), corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Tudo oculto sob o eufemismo íntimo da rachadinha, máscara cômoda do furto sistemático.

Qualquer dúvida a esse respeito pode ser dirimida depois do oportuno vazamento da investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre a prática assumida por seu antigo companheiro na Brigada de Paraquedistas, o subtenente PM Fabrício Queiroz. A mera constatação de depósitos de R$ 89 mil de Fabrício para Michelle, desmascarando o “mito” do empréstimo que ele usou como argumento para justificar a parte deles revelada no relatório do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf), não fala nada bem da lisura do casal presidencial. A enxurrada de insultos emanados do “gabinete do ódio”, chefiado por outro filho, Carlos, bastará para dar força à convicção de quem se lembrar do conceito antigo de que “desculpa de cego é feira ruim e saco furado”. Como o saco furado é o bolso do empobrecido e desfavorecido pagador de impostos, este é que faz as vezes do deficiente visual. A feira ruim manifesta-se na cegueira dos fanáticos que apelam para as quantias mais volumosas de ex-colegas do filho nota zero um na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), ou até na ausência de zeros à direita comparada com quantias bilionárias obtidas criminosamente com as propinas do Departamento Estrutural da Odebrecht e de outras empreiteiras corrupteiras. “É troco de igreja”, segundo um presumível blogueiro fantasma cognominado de João Oliveira. Houve até quem fizesse a conta: R$ 750 por mês. Como se a quantia, presumivelmente mixuruca, desqualificasse o roubo, não o gatuno.

Ao nomear André Mendonça, preposto de Dias Toffoli, ex-advogado do Partido dos Trabalhadores (PT), para a Advocacia-Geral da União (AGU) e depois para a pasta da qual expulsou Moro, antes de tentar destruir a reputação do ex-juiz da Lava Jato, Bolsonaro garantiu a própria imunidade para seu rebanho. E mostrou que não vacilaria em retomar o caminho da volta, do qual ninguém se perde, como ensinava José Américo de Almeida, ao atirar a lista tríplice dos procuradores federais no lixo. E ao nomear para a Procuradoria-Geral da República (PGR) Augusto Aras. Enquanto este age como seu despachante pessoal, ele buscou antigos companheiros do Centrão (“não fica um, meu irmão”, general Heleno?), para garantir os dois quintos necessários de votos para impedirem o impeachment e a abertura de um inquérito penal na Câmara dos Deputados. Então, fechou o círculo de ferro, que o mantém a salvo das assombrações noturnas no Alvorada de 100 mil brasileiros mortos por culpa de sua total indiferença e absurda falta de inteligência na pandemia.

Pouco lhe importa a implacável lógica aristotélica que desnuda o peculato pela movimentação financeira da filha de Fabrício, Nathália, que recebeu R$ 774 mil da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em seis anos, tendo devolvido R$ 622 mil ao pretenso patrimônio paterno. Poucas filhas terão sido tão pródigas com seus genitores como o foi a moçoila. Mais fantástico ainda será atribuir à filhota o dom da ubiquidade, ao treinar o galã global Bruno Gagliasso (por R$ 900) ou dar aulas presenciais nas academias Body Tech, North Fitness e Sport Solution, no Rio, honestamente, com o suor de seus músculos (R$ 22 mil), enquanto era secretária lotada no gabinete de papai Jair na Câmara dos Deputados, no Planalto Central do País. Com esse feito, igualou os milagres dos santos católicos ubíquos Padre Pio, Martinho de Porras, Dom Bosco, São Francisco Xavier e Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa). Pai e filha foram demitidos dos gabinetes do hoje senador e do atual presidente. Acreditar que foi mera coincidência ter acontecido isso no momento em que o clã fora avisado por um federal alcaguete, como contou ao Ministério Público o empresário Paulo Marinho, é dar-lhes o benefício da profecia.

O mínimo de zelo pelo patrimônio público será investigar até o fim as causas da “generosidade” miliciana dos R$ 400 mil depositados em espécie, sem origem comprovada, pelo capitão PM Adriano Magalhães da Nóbrega na conta de Queiroz. Afinal, quem nunca vai sempre pode voltar.

*Jornalista, poeta e escritor

Publicado em: 11/08/2020