O Recife que papai nos mostrou

Esta é uma das relíquias mais lindas que meus irmãos encontraram nos velhos arquivos empoeirados do meu pai Gastão Cerquinha. Atravessando a Ponte Velha do Recife, ele apresenta as belezas da cidade grande ao filho primogênito Tarso em plena revolução de 1964. Papai era presença assídua na capital como comerciante em Afogados da Ingazeira.

E quando os filhos passavam da barreira dos dez anos fazia questão de carimbar o passaporte deles para pedir passagem nos velhos e saudosos trens que nos transportavam do Sertão ao Recife. Viagem longa, desconfortável, mas cheia de paisagens e histórias inesquecíveis, que começavam pela estação de Mimoso, distrito de Pesqueira.

Mimoso era nome de um touro formoso e grande reprodutor que papaia criava em seu sítio da Gangorra, paraíso em meio à caatinga que a gente alcançava andando a pé sob um sol escaldante, estrada de terra, com os carros jogando poeira em nossas caras. Eu e meu irmão encangado Marcelo batemos recordes de idas e vindas. A Gangorra era o corredor que escoava a felicidade dos anos dourados sem que tivéssemos a verdadeira noção disso.

Era terra de colher goiaba, umbu, manga e pitomba. De estender redes à sombra de árvores frondosas como o Juazeiro para piqueniques aos domingos. Terra seca, mas molhada de sonhos embalados pelo amor que papai e mamãe deixavam florar. Terra em que a gente se divertia ouvindo as histórias lendárias de um Jeca Tatu.

O trem Maria Fumaça nos transportava por estações lendárias, sem fim. Pombos foi a que mais nos marcaram. O sino tocava, ouvíamos o apito do trem. Eu procurava os pombos e não os encontrava. Menino ingênuo criado  sem TV, a luz de candeeiro ou vaga-lume, os pombos, nunca imaginei um dia, chegaram à nossa mesa para matar a fome que nos avizinhava nos arredores entrincheirados de um Sertão que Lampião fazia justiça com as próprias mãos.

Eram 12 horas de viagem. Nunca esqueço as tardes em que ia fazer espera de saudade de um pai empoeirado descendo as escadas do trem em Afogados da Ingazeira. O cheiro do Recife era de maçã. A fruta, só produzida em regiões de clima frio, nunca era esquecida na bagagem de papai. Nem precisava anunciar com a sua voz mansa que havia trazido maçã. A gente sabia pelo cheiro, era um cheiro que não se tinha no Sertão. A gente se criou cheirando manga, caju e pitomba. Maçã, nunca. Só quando vinha da capital.

No Recife, papai nos hospedava na Pensão Natal, hotelzinho de retirantes da seca, de onde a gente caminhava até ao cinema Moderno para ver Mazaropi, Zorro e Tarzan. Além da tela gigante, conhecemos pela primeira vez, também, um aparelho de televisão. Ainda em preto e branco, alegrava as tardes de domingo com Chacrinha.

As nossas lembranças são as melhores formas de guardarmos momentos que foram importantes nas nossas vidas. Afinal, a vida não é simbolizada pelas riquezas que acumulamos, mas os bons momentos que desfrutamos com quem amamos e as lembranças que guardamos. As boas lembranças servem para nos recordar que é possível ser feliz novamente.

Bons momentos se tornam boas lembranças. Maus momentos se tornam grandes lições. As melhores lembranças não ficam em fotos, ficam no coração. Melhor a lembrança de ter vivido intensamente do que a dor do arrependimento.

O meu coração está cheio de boas recordações. E minha mente cheia de amor. O que seria do ser humano se não fossem as lembranças saudosas dos bons tempos!

Publicado em: 11/08/2020