Os desafios na superação da pobreza digital

Por Arnaldo Santos*

Os avanços na agricultura, a modernização da indústria e a expansão do comércio e serviços nas últimas décadas no Brasil, ainda não foram suficientes para colocar nossos índices de pobreza e a desigualdades em patamares digno de um país que se pretende democrático. E o problema é mais acentuado nas regiões Norte e Nordeste, e infelizmente esse cenário deve se agravar no pós-pandemia.

Com as novas tecnologias, surgiu o conceito de inclusão digital do qual os brasileiros muito ouvem falar, e os mais pobres são cada vez menos incluídos, mesmo com ampliação da cobertura pela internet, e o surgimento dos dispositivos digitais móveis, que deram origem ao que Manuell Castells chamou de sociedade em rede.

Enquanto os socialmente privilegiados usufruem de internet banda larga 4G, Wi-Fi, e transmissão de dados em alta velocidade via fibra óptica, significativa parcela da população não tem acesso a um simples computador e a internet básica, especialmente os estudantes pobres, razão por que estão sem estudar nesse período da Covid.

Transpondo interesses econômicos, essa moderna infraestrutura tecnológica, também, possui uma função social a cumprir, e os governos, e as empresas do setor, precisam criar as condições para fazer chegar aos que menos têm e muito precisam, pois, do contrário, as desigualdades digitais vão agravar a pobreza multidimensional, já que não basta a banda ser larga, se o acesso continuar estreito.

A pandemia da COVID-19 escancarou o tamanho da desigualdade digital no Brasil, como evidenciam os dados levantados pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), solicitados pelo Unicef, revelando que “[…] 4,8 milhões de estudantes de 9 a 17 anos, não têm internet em casa; o que representa  17% de todos os brasileiros nessa faixa de idade, estando a maioria sem acesso as aulas on-line, e a outros conteúdos que garantam a continuidade do aprendizado” – consoante assinalou Ítalo Dutra, chefe de educação do Unicef.

No conceito de inclusão digital, vemos que” […] o incluído digitalmente não é apenas quem utiliza um celular com essa nova linguagem, que é o mundo digital, para trocar e-mails, mas aquele que usufrui desse suporte para melhorar as condições de vida, através de novas oportunidades de trabalho, meios de comunicação, e novos aprendizados”.

No curto prazo, se não houver a opção por uma política de inclusão social digital, no sentido não somente do acesso à informação, mas, também, na formação das pessoas nessa área, em todo o País, a consequência imediata será deixar ainda mais para trás milhões de pessoas que vivem na pobreza, à míngua da inclusão tecnológica sempre mais essencial na vida de todos.

A desigualdade digital, além de impedir que milhões de cidadãos vivam socialmente conectados e produtivos no interior das redes a que pertencem em seus territórios, por não terem os pré-requisitos exigidos pelo mundo digital, também ficarão sem poder chegar a alguns serviços judiciários, e de saúde - como marcação de consultas e exame - requisição de documentos, recorrentemente em uso só pela internet, e, o mais grave, sem acesso a qualquer modalidade de conhecimento no meio de ensino a distância.

Atento à realidade que emergirá no pós-pandemia, é importante que os governos já trabalhem na estruturação de um novo modelo de políticas sociais que possam incorporar de forma acelerada a revolução desse universo digital em curso no mundo inteiro, e que o coronavírus tratou de antecipar.

Nesse âmbito, impõe-se aos formuladores das políticas públicas, a incorporação de novas categorias de análises, para se conhecer de forma mais focada, toda a geografia e a extensão da pobreza, não só no seu caráter de renda, mais também no seu aspecto multidimensional, onde o vetor “pobreza digital” ganha grande relevância nesse momento.

Identificar, por exemplo, as necessidades na área de formação digital para o trabalho dos seus cidadãos, especialmente dos chamados analfabetos funcionais, torna-se fundamental para antecipar estratégias de ações e preparar esse contingente mais carente para os desafios na nova economia que surgirá. Entretanto, essa nova estratégia a ser construída, vai exigir um amplo e consistente processo de articulação entre os vários setores governamentais, pois o impacto da tecnologia digital perpassa de forma relevante por diversas áreas das ações públicas.

Mais especificamente, o cumprimento e o êxito desses objetivos, em razão da complexidade que os envolve, dependerão em muito também dos meios a serem utilizados, o que vai exigir a formulação de projetos bem mais estruturados, no sentido de possibilitar mais eficiência, rapidez e segurança para se identificar quem são também os “pobres digitais”. Ademais, o monitoramento desse grupo da população, vai exigir ainda uma ampla rede de coleta de dados e informações frequentes, o que não será uma tarefa simples.

Nesse contexto, o estado do Ceará, que nas últimas três décadas têm sido vanguarda, especialmente em educação, está diante da oportunidade de se tornar também referência nacional, na formulação e execução de uma política de inclusão social digital, alargando a banda de acesso às novas tecnologias da informação para as populações de baixa renda. É imperioso lembrar que o Estado já dispõe de uma infraestrutura de rede com 8,5 mil Km de cabo de fibra óptica.

O desafio que se impõe agora é avançar mais ainda, utilizando essa infraestrutura digital existente reforçando seu caráter social, conectando famílias pobres, escolas, hospitais, centro de cidadanias, e outros serviços, especialmente nas zonas rurais. De forma mais especial, permitir aos estudantes, mais do que acesso à informação, também novos aprendizados e formação digital para o trabalho, para que possam enfrentar a difícil realidade em curso, é algo prioritário. A rede de cabo para conectar a população pobre com o mundo digital, e o seletivo mercado de trabalho, na convalescença da economia no pós-COVID, serão sustentados por três dos mais inteligentes clicks, para o Estado.

Ao primeiro cumpre superar os terabytes de preconceito em relação à capacidade dos mais pobres para aprender tecnologia, como está na memória de alguns; o segundo será para “startar” a execução dessa que poderá vir a ser a mais importante política da segunda metade do governo Camilo Santana; e o terceiro click, que será ancorado em alguns milhões de megabytes de investimentos públicos e privados, com a participação das grandes empresas internacionais de tecnologia.

Ações nessa direção nos faz enxergar variadas possibilidades de importância vital para estruturação de uma economia criativa no Ceará, de um lado, pela geração e formação de uma mão de obra de alto valor agregado, para um mercado em expansão acelerada e carente de técnicos nas mais diversas áreas, da telecomunicação, infraestrutura de rede, energias renováveis, programadores e desenvolvedores para indústria de games, dentre outras. Isso sem falar nas áreas de nível superior com as engenharias, analistas de sistemas, e criadores de inteligência artificial, para os jovens que pretendem carreiras mais especializadas. É inimaginável também, além dos ganhos econômicos citados, os benefícios sociais significativos que podem surgir por exemplo na redução da violência, que a inclusão digital pode gerar.

Por fim, conforme sugere Gilberto Gil, os cearenses estão dizendo “[…] eu quero entrar na rede, promover um debate, juntar via internet, um grupo de tietes de Connecticut”, […] eu quero entrar na rede pra contactar os lares do Nepal e os bares do Gabão”.

*Jornalista, sociólogo e doutor em Ciências Políticas

Publicado em: 31/07/2020