O céu e o inferno da cloroquina

Antonio Magalhães*

Debate científico, simpósio, conferência, congresso, em qualquer reunião de cientistas vai estar presente a discórdia, a controvérsia, opiniões divergentes, teorias contrárias, tudo o que a Ciência precisa para chegar a alguma conclusão.

A chamada “guerra da cloroquina” que envolve cientistas, médicos, políticos, juízes, militares, jornalistas, internautas, desinformados etc, vai acabar como termina toda discussão que envolve opiniões variadas: observando o resultado prático que determina qual a melhor terapia. Como ambos os lados apresentam estudos científicos com pontos de vistas divergentes há uma chance desse debate demorar muito, pelo menos até quando acabe a pandemia da Covid-19 e se possa fazer uma avaliação da tese que prevaleceu.

Qualquer alteração no “status quo” gera incertezas naqueles que vêm seguindo determinada linha científica, com base em práticas e estudos já consagrados. A novidade do uso de medicamentos antigos para novas doenças esbarram, às vezes, nas burocracias médicas das instituições corporativas. E os alinhados às corporações são incapazes de admitir resultados positivos da nova terapia sem que se indignem ou ajam como censores dos chamados “rebeldes”.

Pois bem, no século 19, um jovem cirurgião britânico Joseph Lester se contrapôs às práticas cirúrgicas da época, nas quais sair com vida de uma mesa de operações era uma vitória e sobreviver em recuperação hospitalar era outro ganho. Isso porque os lugares infectos das cirurgias, os instrumentos médicos, a roupa dos médicos, estavam todos contaminados de micróbios, como se dizia na época.

O livro “Medicina dos Horrores” da inglesa Lindsey Fitzharris, doutora pela Universidade de Oxford, narra a qualidade da prática médica da época. O doutor Joseph Lester observou o  que acontecia e como pesquisador foi estudar a melhor maneira de higienizar os ambientes cirúrgicos e hospitalares.

Como integrante do corpo médico de um importante hospital londrino conseguiu depois de anos de pesquisa reduzir os riscos das cirurgias e garantir aos pacientes uma permanência esperançosa nas enfermarias. Pouco a pouco suas sugestões foram sendo aceitas até que toparam com os chefões corporativos da medicina de Londres, descrentes que as mudanças propostas por Lester fossem assegurar a saúde dos pacientes.

Joseph Lester implantou as práticas antissépticas onde trabalhava e os resultados surgiram. De Londres foi para Edimburgo, na Escócia, onde pode avançar ainda mais nas suas pesquisas e pô-las em prática. A força dos resultados positivos se impôs diante dos obtusos casacudos.

Só como curiosidade, o sistema antisséptico desse médico inspirou outro cientista que criou um medicamento para o combate de germes e bactérias, não só nas salas cirúrgicas. E em 1895, ele foi oferecido à classe odontológica como enxaguante bucal, o conhecido Listerine, uma homenagem ao brilhante cirurgião e pesquisador.

Mas voltando ao nosso tempo e à nossa pandemia, a prática autoritária do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) que, por meio de nota assinada por representantes de comissões internas, ameaçou na semana passada um julgamento ético para aqueles profissionais que receitam a contestada e rebelde Hidroxicloroquina para seus pacientes com a Covid. E ainda os acusava de esconder dos enfermos os supostos efeitos colaterais do remédio. Uma forma caluniosa de censurar um ato médico que deve ser pleno de autonomia.

No dia 14 de julho, o próprio presidente do Cremepe, o médico Mário Fernando Lins, por meio de nota oficial e vídeo em rede social, disse que nenhum médico incorre em quebra da ética se receitar a Hidroxicloroquina. Um remédio que vem, sem nenhum alarde, há 70 anos auxiliando enfermos com doenças autoimunes, malária e reumatoides sem causar problemas.

Agora, com a Covid na boca do mundo o medicamento tornou-se o céu e o inferno da medicina. E mobiliza em discussões técnicas especialistas de todo o mundo que tentam provar ou reprovar o seu uso. É demais.

Esse não vai ser o último grande debate farmo-científico. Outros virão. E no fim desse tempo infeliz do coronavírus haverá a contagem dos mortos e dos curados. E tristemente também a contabilidade daqueles que poderiam ter sido salvos da pandemia se usassem o medicamento rebelde. É isso.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Publicado em: 16/07/2020