Fake news nas pesquisas eleitorais

Por Maurício Garcia*

Quem trabalha no mercado de pesquisas de opinião pública e política há um tempo, e eu estou perto de completar meus 30 anos nisso, lembra de um fato “curioso” com relação à pré-campanha da eleição presidencial de 2002. Ainda em 2001, logo após o então PFL usar intensivamente sua campanha partidária para apresentar ao país a então governadora do Maranhão Roseana Sarney, capitaneada pelo publicitário Nizan Guanaes, o instituto Sensus lançou pesquisa nacional para medir a intenção de voto dos brasileiros.

A pesquisa foi divulgada dias depois e mostrava que a então governadora havia passada o favorito Lula. Não que isso não fosse impossível de ocorrer com o passar do tempo, pois Roseana Sarney seria a grande novidade naquele momento, mas existiam uns “pecadinhos” no questionário utilizado pelo instituto. Antes da pergunta de intenção de voto, foi perguntado ao eleitor o que ele achava de greves no funcionalismo público (tema difícil ao PT de Lula na época), sua opinião sobre o racionamento de energia elétrica (calcanhar de Aquiles pós apagões para o governista José Serra) e sobre acusações de envolvimento do PT gaúcho com o jogo do bicho. Só depois disso se perguntava em quem o eleitor votaria para presidente.

Graças ao registro da pesquisa no TSE todos puderam ver esse “pequeno descuido” do instituto e a pesquisa não passou nem a constar nas listas de evolução da intenção de votos, e sim passou a fazer parte de um rol de pesquisas, no mínimo, “questionáveis”, e entrou no anedotário da política brasileira.

Nesse final de semana, consultando, como faço por ofício frequentemente no site do TSE, as pesquisas registradas, deparei-me com uma que também suscita as mesmas dúvidas dessa de 2001. Primeiro porque a pesquisa foi realizada em junho, entre os dias 21 e 27, registrada só no dia 11 de julho, para ser divulgada dia 17 de julho.

Além disso, a pesquisa é descrita como feita com uma “amostra aleatória pôs-estratificada via algoritmo iterativo”. Alguém entendeu?? Com os meus quase 30 anos de pesquisa tenho, sinceramente, dificuldades.

E olha que não falamos do questionário gigantesco, que inicia com temas nacionais, absolutamente genéricos, para finalizar nas perguntas numeradas como 30, 33 a 38 (olhem quantas foram feitas antes!) com o cenário eleitoral em Recife, que com certeza é a razão do registro da pesquisa.

Pesquisadores gostam de dizer que pesquisa é “uma fotografia do momento”, que momento representa essa pesquisa? Alguém pode garantir, com 100% de certeza, que essa pesquisa irá refletir na data da sua divulgação, 20 dias após o seu término, o “atual momento” da pré-campanha eleitoral em Recife em 2020? Fica a questão.

*Sociólogo e pesquisador de opinião pública e política

Publicado em: 14/07/2020