Rios de ideias e pensamentos

Marlos Porto*

"Quantos assassinatos foram cometidos por regimes ditos comunistas? Vamos, portanto, criminalizar o comunismo!" - dizem alguns, lembrando do terror na União Soviética sob Stalin, na China sob Mao Tse Tung, abusos cometidos em Cuba, no Camboja, no leste europeu, na Coreia do Norte, etc.

Quem assim fala, por coerência, deveria também dizer: "quantos assassinatos foram cometidos por regimes ditos católicos? Vamos, portanto, criminalizar o catolicismo!" - pois seria correto lembrar também das atrocidades das Cruzadas no Oriente e também na Europa (contra os cátaros, na Cruzada Albigense); das barbáries da "Santa" Inquisição contra as mulheres (inclusive Joana D'Arc), contra minorias como judeus, protestantes, ciganos, etc., e contra cientistas e filósofos (como Giordano Bruno e Nicolau Copérnico), e do Massacre da Noite de São Bartolomeu, em Paris (contra os protestantes franceses - os huguenotes).

Deveria também dizer: "quantos assassinatos foram cometidos por regimes ditos protestantes? Vamos, portanto, criminalizar o protestantismo!", pois seria necessário lembrar do massacre contra os anabatistas, que contou com o apoio de Lutero, na Guerra dos Camponeses, na Alemanha; da morte de Miguel Servet ("teólogo, médico e filósofo aragonês, humanista, interessando-se por assuntos como astronomia, meteorologia, geografia, jurisprudência, matemática, anatomia, estudos bíblicos e medicina" - vide Wikipedia), denunciado, entre outros, pelo próprio João Calvino; da morte de Thomas Morus, condenado por se negar a reconhecer Henrique VIII como cabeça da igreja protestante da Inglaterra, e mesmo dos massacres de Cunhaú e Uruaçú, no Rio Grande do Norte, em 1645, pelos invasores holandeses contra os católicos que se recusaram a abraçar a fé calvinista.

É preciso também, por fim, dizer: "quantos assassinatos foram cometidos por regimes ditos capitalistas? Vamos, portanto, criminalizar o capitalismo!", pois seria necessário lembrar da violência (inclusive da escravidão) feita pelas potências ocidentais mercantilistas (sendo o mercantilismo o precursor do capitalismo), capitalistas e imperialistas nas colônias das Américas, da África e da Ásia; do Regime do Terror sob Robespierre, na França; das mortes dos trabalhadores nas fábricas, nas minas, em túneis, na construção civil, etc., geralmente em condições insalubres; das mortes de crianças entaladas ao limparem as chaminés na Inglaterra (sendo que tal prática só foi abolida em 1875 pelo Parlamento Britânico); da violência cometida pelos EUA, em suas ocupações mundo afora, quase sempre em defesa de seus interesses econômicos; dos movimentos discriminatórios e autoritários de supremacistas brancos nos EUA e em outras partes do mundo, inclusive do regime do Apartheid na África do Sul; do fascismo, do nazismo, do franquismo, do salazarismo, das ditaduras sul-americanas e africanas, posto que todos estes regimes eram capitalistas, em maior ou menor grau, e defendiam o direito de exploração de uns sobre outros, defendiam a opressão do homem pelo homem.

Restaria, então, o anarquismo? Talvez. Mas, para ser coerente, também em nome do anarquismo foram cometidos muitos crimes e atrocidades. Basta lembrar dos excessos do exército de Néstor Makhno, na Ucrânia, de práticas violentas de alguns grupos anarquistas, nos séculos XIX e XX, e mesmo no século XXI. 

Qual o caminho, então? Certamente, não é a criminalização.

Não se criminalizam ideias, amigos.

A apologia nazista é exceção, posto que esse regime é totalmente inconciliável com uma sociedade que se pretenda livre, igualitária e justa e que tenha a dignidade humana como fundamento.

Outras vertentes de pensamento, seja político, como as ideias liberais, capitalistas, socialistas, comunistas ou anarquistas, seja de cunho religioso, como o católico, o protestante/evangélico (em suas múltiplas formas), o islâmico, o hindu, o budista, etc., podem, apesar de graves erros históricos, maiores ou menores, se harmonizar com os princípios constitucionais de nossa sociedade.

Não que não possa ou que não deva haver divergências ou choques entre tais correntes de pensamento, ou de alguma(s) desta(s) com o pensamento predominante na sociedade em determinada época; é natural que por vezes haja. Assim como as águas do Rio Solimões e do Rio Negro não se misturam no início, é inconteste que mais na frente todas desaguam no mar, por vezes gerando choques violentos.

Penso que é preciso, ao longo de nossas vidas, respeito, diálogo e tolerância com aqueles que defendem pensamentos ou ideias diferentes dos(as) nossos(as), pois todos esses ramos/vertentes, à semelhança dos inúmeros afluentes que correm para formar o Rio Amazonas, são responsáveis por formar a riqueza do pensamento e da cultura de uma sociedade, nos seus mais variados aspectos, a fim de, ao cabo, desaguarem todos juntos em uma sociedade melhor e cada vez mais evoluída.

*Marlos Porto é servidor público e membro do Cidadania em Arcoverde

Publicado em: 12/07/2020