Um teletorcedor na pós-pandemia

Por Antonio Magalhães*

Como militante da teletorcida do futebol, que tem no replay sua melhor jogada, fico pensando no gol que o coronavírus fez no futebol – nacional e internacional – furando a rede e detonando os clubes já quase falidos. Mas com o alívio da pandemia mais perto do que longe, essa é a expectativa, é também a hora de pensar nos nossos times e como mantê-los vivos sem auxílio de respiradores metafóricos.

Acompanho de longe os clubes de futebol de Pernambuco e vejo que eles estão tomando algumas iniciativas para suprir o caixa vazio. Vendas de camisas, antecipação de ingressos para os jogos e outras ações de pequena monta. A venda de camisetas e broches não deu certo no PT, por isso, para se viabilizarem, partiram para cima dos cofres robustos das estatais. E deu no que deu.

Parece-me que pode haver mais uma opção, talvez tenha sido pensada já pelos clubes. Recentemente uma decisão do Governo Federal liberou os sorteios nas emissoras de TV Aberta. A Rede TV já partiu na frente e está sorteando carros e outras coisas. E por que os clubes não fecham um contrato com as emissoras dispostas a sortearem brindes de monta com o escudo do time?

Por exemplo, um determinado clube fecha com a emissora para sortear 12 carros, um por mês, com a marca do time. Os torcedores desse clube dariam seu dinheiro com prazer na expectativa de ser premiado. Melhor do que a massa de torcedores só contribuir a fundo perdido. E nem ter a certeza de que seu clube de coração vai ganhar os jogos.

O futebol é o segmento esportivo no qual só se conversa sobre milhões de reais. Será que o plantel corresponde ao investimento do clube, ganhando jogos e fazendo gols. Não existem formas de contratos indexados à produtividade. Jogou bem, ganha mais. Agora ter uma série de encostados com salários de presidente das empresas privadas não vai levar clube algum ao paraíso das finanças organizadas.

Outra coisa para capitalizar o clube e agregar torcedores de bem é um leilão de bons momentos com os jogadores – coisa de família. Qual torcedor de verdade e sério não gostaria de levar seus ídolos para um jantar ou um almoço em casa? Passar um tempo batendo papo com famosos cheios de histórias para contar. O custo para o jogador seria zero. Ele ganharia a estima permanente da torcida e o clube faturaria no leilão uns trocados a mais, retribuindo o investimento do torcedor. Não existe almoço grátis.

Outra coisa que me passou pela cabeça foi a possibilidade dos clubes com grande torcida ou média – como o Náutico, meu time – de criar uma cooperativa de crédito para fazer operações financeiras diretamente com os torcedores, respeitando claro a legislação bancária. Há muitos anos tive notícia – não sei se existe mais – que o Barcelona tinha um banco para atender sua torcida dentro do sistema bancário.

Não sei se cabem essas sugestões de um mero teletorcedor, que tem fé no replay, mas os clubes locais e nacionais têm que procurar soluções alternativas para arrecadar recursos agora e mais adiante. O atual sistema de cotas de TV, direito de arena, cotas para jogadores, não avançou em nada para melhorar as finanças dos clubes. Quando tudo que se faz não dá certo porque insistir no erro? Pode ser a hora de mudar. Os clubes têm entre seus associados mentes brilhantes de administradores, homens de finanças, craques do marketing. Ponham a cabeça para criar. É isso. (Da revista Torcida Digital – junho 2020)

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Publicado em: 09/07/2020