A dama de ouro da polĂ­tica pernambucana

Quando alguém amado morria, lá na minha drumoniana Afogados da Ingazeira, que conservo a foto preta & branco na parede da memória de doces recordações, embalada pelo Riacho do Navio, de Luiz Gonzaga, minha mãe dizia que Deus nunca deveria chamar os bons, mas eternizá-los. Dona Maria do Carmo, 94 anos, vencida por um câncer hoje de madrugada, se insere nessa ilustre galeria da sonora queixa de mãe Dó ao Deus poderoso.

Mas ninguém vem ao mundo para semente e nem Dona Do Carmo, embora fizesse jus ao choro de mamãe, certamente não queria essa exceção. Meus amigos Armando Monteiro Neto, ex-senador, e Eduardo Monteiro, diretor-presidente do Grupo EQM, no qual trabalhei e ajudei a fundar a Folha de Pernambuco, perderam a mãe. Eu perdi uma amiga, uma leitora atenta, fiel e crítica, de grandes e emocionantes histórias do pai Agamenon Magalhães e do marido Armando Monteiro Filho.

Nunca conheci alguém tão fina e refinada, de educação alicerçada numa das mais respeitadas escolas do País, o Sacré-Coeur de Marie, no Rio de Janeiro, onde viveu parte da adolescência. Ali, o pai cumpria o ofício de ministro do Trabalho no Governo Vargas. Brasília ainda não estava nem na cabeça privilegiada de Niemeyer, a capital política e administrativa era o Rio, que continua lindo. Dona Do Carmo nasceu, portanto, em berço político, viveu a efervescência da era Getúlio Vargas, que deu cabo a vida com um tiro no coração.

Deputado federal, a atuação de Agamenon Magalhães na Constituinte de 1933 foi pautada na defesa do regime parlamentarista, na qual não teve apoio nem do Governo nem dos demais parlamentares. Apesar disso, em 1934, foi convidado pelo presidente Getúlio Vargas para a pasta do Trabalho, Indústria e Comércio. Quis o destino que o amor da vida de sua filha amada, meu saudoso amigo Armando Monteiro Filho, também ex-ministro, mas de Jango, ex-deputado federal, nascesse também na circunscrição da política e do poder.

Convocado para os debates celestiais em janeiro de 2018, dois anos antes de Deus também recrutar Dona Do Carmo, Armando Monteiro Filho respirava política 24 horas. Participou ativamente da política estudantil, tendo sido eleito deputado estadual em 1950, pelo PSD. Não conseguiu assumir devido ao parentesco com o então governador Agamenon Magalhães, seu sogro. Em 1954, foi eleito o deputado federal mais votado de Pernambuco. Foi ministro da agricultura no Governo de João Goulart, de 8 de setembro de 1961 a 26 de junho de 1962, nomeado pelo então primeiro-ministro Tancredo Neves.

Em 1962, foi candidato ao Governo de Pernambuco, derrotado por Miguel Arraes. Durante a ditadura foi filiado ao MDB, tendo depois se transferido para o PDT, virando um brizolista convicto. Voltou a concorrer na política em 1994, e como candidato ao Senado foi derrotado. Armando e Do Carmo viveram os segredos republicanos de João Goulart e os da província de Agamenon.

Isolado do mundo pela pandemia, soube, ontem, ao final da tarde, do quadro de saúde irreversível da dama de ouro da política pernambucana com P maiúsculo. Imediatamente, recordei o último beijo que dei na sua face perfumada. Foi na missa sétimo dia da mãe do presidente do Tribunal de Contas da União, o igualmente Monteiro, José Múcio, na primeira semana de janeiro passado.

Eu ainda escrevia a coluna política da Folha, ela me abraçou e disse: “Sou sua leitora fiel e inseparável. Gosto de tudo que você escreve e concordo com quase tudo”. Dei uma gargalhada e pedi a gentileza dela para o registro desta foto que ilustra esse texto carregado de muita emoção e saudade.

A dor que Armando e Eduardo, como filhos, sofrem neste momento já arrancou um pedaço do meu coração também, quando Deus chamou minha mãe Dó, há sete anos. A dor é muito cruel, porque vira tristeza, vira saudade e saudade fica guardada no coração. As lágrimas que caem arrastam o último sorriso por mais impregnado que tenha ficado. O único consolo é a certeza de que a saudade eterniza a presença de quem se foi.

Mulheres como Dona Do Carmo servem de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural. Dona Do Carmo tem razão para dizer como Coralina. Foi mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores. No seu caixão poderia ficar escrito: “Nasci em tempos rudes. Aceitei contradições, lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo. Aprendi a viver”.

Publicado em: 09/07/2020