A botija que virou lenda no Sertão

Meu tronco Martins, da minha mãe Margarida, originário da paraibana Monteiro, já me reportei neste espaço, versa pela dura e implacável personalidade. Meu avô Severo Martins, que morreu dormindo numa cadeira de balanço já beirando os 90 anos, era de poucos sorrisos. Ao partir de Monteiro em direção a Afogados da Ingazeira num pau de arara, em busca de um eldorado, arrastou seus cinco irmãos.

Josué, Suzinha, Francisco, Panta e Quitéria. Cada um tomou um rumo diferente para se fazer gente na vida. Não conheci nenhum deles, mas minha tia Lila, 80 anos, residente em Vitória da Conquista (BA), confirmou uma história que virou mitologia lembrada ontem por minha irmã Ana Regina: Josué Martins, afamado mão de vaca, ganhou notabilidade na cidade por uma curiosidade que nunca se confirmou.

A de que tinha uma botija enterrada em sua casa, instalada num sobrado próximo à igreja de São Sebastião, no bairro homônimo. Josué ganhou muito dinheiro abrindo a primeira farmácia de Afogados num tempo em que o povo era acometido de papeira, sarampo, catapora e até doença dos quartos, assim tratada pelos mais avançados na estrada da vida. Mas ninguém via a cor da sua dinheirama, nem mesmo sua mulher Terezinha, com quem não teve filhos e acabou adotando uma garota chamada Olivia, herdeira de todo seu patrimônio, que, além da farmácia, incluía vários imóveis na cidade.

Como meu avô Severo, Josué só vestia paletó de linho branco seguindo a moda dos coronéis da política dos grotões da época. Chegou a comprar uma patente de Coronel e dela não se largava em nenhum instante. Quando morreu, seu corpo foi vestido com o trage típico de Coronel e a famigerada patente sobre o seu peito. Famoso na região, Padre Antônio não resistiu diante da cena e foi visto rindo durante a missa de corpo presente na igreja, segundo minha tia Lila tomou conhecimento.

O destino da misteriosa botija foi motivo de chacota e de histórias que entraram para o folclore da cidade. Na verdade, virou lenda. E isso não se deu por acaso. Por muitas décadas, foi cultivada a cultura de utilizar as botijas no Nordeste brasileiro para guardar bens pessoais na forma de dinheiro, ouro em barras ou em moedas, jóias preciosas (ou quaisquer bens de valor que coubesse dentro deste vaso) como cofre improvisado enterrado no subsolo.

Com isso, entrou para o vocabulário brasileiro o termo botija para designar vasos, caixas, potes e baús que contém tesouros guardados e enterrados. Obras na literatura brasileira sobre o Nordeste exploram bastante os contos sobre botijas encontradas, sobretudo o filme O Homem que desafiou o diabo. Nele, tem uma passagem onde o protagonista desenterra uma "botija de ouro".

A de Josué nunca foi descoberta, mas a sua casinha continua intacta em Afogados da Ingazeira. Quem sabe depois desta crônica não apareça um Martins por lá querendo revirar a casa da cabeça para baixo.

Publicado em: 06/07/2020