Filhos da irrigação

Ex-presidente da Chesf, ex-deputado federal com notável atuação no Congresso, o baiano de alma pernambucana José Carlos Aleluia prestou, hoje, nas redes sociais, uma belíssima homenagem ao ex-deputado Osvaldo Coelho, a baraúna do Sertão. Para Aleluia, Osvaldão, carinhosamente tratado pela coragem e grandeza de gestos em favor da gente sofrida nordestina, foi amigo, inspirador e mestre.

Para mim, sertanejo como ele, mas do Pajeú das Flores rogacianas, terra mais seca e deserta do que as da sua pátria abençoada do Velho Chico, Osvaldo era o trovão que fazia a simbólica concha que encobre o plenário da Câmara dos Deputados tremular e até rachar com seu grito gonzaguiano em versão de discurso, defendendo um Sertão mais justo, convertido da pobreza em riqueza pela divina varinha mágica da irrigação.

Era o Doutor do semiárido, da caatinga, pastor de ovelhas sedentas, dono da lamparina que iluminava os caminhos das trevas do Sertão muito mais que a lua cheia rasgando o céu da sua amada Petrolina. Como repórter que o entrevistou, por vezes no efervescente Salão Verde da Câmara dos Deputados, outras sob o calor de 40 graus do Sertão, aprendi a exercer a prática do profético ensinamento de Euclides da Cunha: somos, antes de tudo, fortes.

Doutor Osvaldo não morreu. Ele é eterno. Petrolina concebeu para o Brasil um político com P maiusculo, ficha tão limpa quanto as águas milagrosas do São Francisco. Quantas vezes pude constatar isso no seu caminhar. Jarbas Vasconcelos, quando governador, me disse, certa vez, que Osvaldo era a melhor reprodução de seu Quelé (pai do ex-deputado), político de elevado espírito público, que nunca lhe pediu nada pessoal, só coletivo, em favor do seu povo.

Ninguém conheceu profundamente a alma de gente sofrida quanto ele. Ninguém foi tão visionário a ponto de dobrar o poder de Brasília na conversão de projetos de irrigação no São Francisco. Depois de Nilo Coelho, que assisti ser enterrado sob o cantar dos barranqueiros e do aboio triste dos vaqueiros, ninguém ousou tanto. Osvaldo deu régua e compasso à irrigação, criou os projetos Pontal e Nilo Coelho, deu educação, transformando sua região num novo centro universitário do Nordeste com a Univasf, a Universidade do São Francisco.

O vídeo em anexo, que levou Aleluia às lágrimas com a dor da saudade que bateu forte em seu coração, reproduz o pensamento, o ideário e a larga trajetória do parlamentar. Foram mais de 60 anos de vida pública, cinco mandatos de deputado federal, três de estadual, com passagem pela Secretaria da Fazenda do Estado. Foi dono do cofre sem nunca confundir o público do privado, regra, infelizmente, hoje, de grande parte dos políticos brasileiros.

Doutor Osvaldo dizia que somos filhos da seca, mas podemos ser amanhã filhos da irrigação. No fundo, essa frase singular poderia ser assim: somos pobres sedentos. A água nos encobrirá de riqueza. Se não hoje, no amanhã.

Publicado em: 05/07/2020