Coluna da segunda-feira

Uma “bomba-relógio”

A prisão de Fabrício Queiroz, quinta-feira passada, ativa nova “bomba-relógio” no Governo Bolsonaro, com potencial de ser ainda mais perigosa do que as outras investigações envolvendo o presidente e sua família, segundo avaliação de analistas da cena política nacional. Há quem entende que o Governo fica ainda mais fragilizado e com nova pendência na Justiça, ao lado de ações como o inquérito das Fake News, a cassação da chapa e a investigação sobre a interferência na Polícia Federal.

Apesar da investigação parecer mais nociva para o senador Flávio Bolsonaro do que para o presidente, certamente trará consequências ao Governo. Obviamente o cerco inicial se dará em cima do filho do presidente, mas com certeza não ficará restrito a isso e deverá chegar ao núcleo central do Governo, num momento em que o mandatário está acuado por todos os lados e sua gestão vive um dos momentos de maior fragilidade.

“Tudo vai depender dos próximos dias, do que o Queiroz depor. E se ele decide falar de maneira sincera? Do ponto de vista da periculosidade, ele é muito mais perigoso, por exemplo, do que o inquérito das Fake News”, avalia Marco Aurélio Nogueira, cientista político e professor da Unesp. Para ele, a prisão mostra que as acusações contra a família de Bolsonaro estão vindo de “vários lados”, fechando o cerco ao presidente.

Outro fator é a imprevisibilidade sobre a reação de Queiroz diante de sua prisão, e possivelmente de sua filha e esposa. “Não sabemos a reação dele diante da prisão. Fala-se em delação premiada. E Queiroz acompanha a família Bolsonaro há anos, não é de hoje que conhece o presidente”, diz a cientista política e professora da PUC-SP, Vera Chaia.

O nome de Fabrício Queiroz veio à tona pela primeira vez pouco após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018. Velho amigo e parceiro de pescaria do patriarca, Queiroz passou mais de uma década a serviço do zero um na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e só foi exonerado do cargo duas semanas antes do segundo turno. No fim daquele ano, veio à tona um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontou movimentação atípica de R$ 1,2 milhão nas contas de Queiroz.

Foram identificados também depósitos fracionados e frequentes de outros funcionários de Flávio na conta bancária de Queiroz, que havia emplacado outros sete familiares em gabinetes legislativos da família Bolsonaro. A suspeita dos investigadores é que Queiroz recolhia parte dos salários de funcionários, prática ilegal, e com o conhecimento de seus superiores.

Acredite se quiser – O advogado Frederick Wassef garante que o presidente Jair Bolsonaro e seu filho, Flávio Bolsonaro, não sabiam onde estava o ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz. Queiroz foi preso na última quinta-feira (18), em um imóvel que pertence a Wassef em Atibaia (SP). “O senador Flávio Bolsonaro não sabia disso. O presidente da República não sabia disso. Eles jamais tiveram ciência desde o que aconteceu agora. Jamais o Flávio ou o próprio presidente tiveram qualquer contato com o Fabrício Queiroz desde dezembro de 2018 até a presente data, e tudo isso são especulações”, afirmou.

Rachadinhas – A operação que levou à prisão do ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz será a base da denúncia que o Ministério Público do Rio deve apresentar contra o primeiro grupo de investigados no caso da “rachadinha”. Investigadores e advogados que conhecem o caso revelam que os promotores devem dividir os processos de acordo com os núcleos da chamada organização criminosa que funcionaria no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), na Assembleia Legislativa do Rio. No pedido de prisão de Fabrício Queiroz, os promotores mostraram que obtiveram na Justiça 103 quebras de sigilos bancários e fiscais de empresas e pessoas para apurar cinco crimes: organização criminosa, obstrução da Justiça, peculato, lavagem de dinheiro e inserção de informação falsa em documento público. Juntos, esses delitos têm penas que atingem, somadas e em caso de condenação, um mínimo de 13 anos e um máximo de 45 anos de prisão.

Foragida – A pedido da Promotoria, o juiz Flávio Nicolau, da 27ª Vara Criminal da de São Paulo, decretou a prisão preventiva de Márcia Oliveira de Aguiar, mulher de Queiroz, por considerar que ela teve ‘participação fundamental’ nas manobras para embaraçar as investigações de peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Segundo o magistrado, era ‘inequívoco’ que Márcia, em liberdade poderia obstaculizar a apuração dos fatos, além de agir sob as ordens de Queiroz. Em sua decisão, Nicolau escreveu que assim como o ex-assessor parlamentar do filho ’01’ do presidente Jair Bolsonaro, Márcia também estava se escondendo, recebendo auxílio de terceiro e ainda cogitava fugir caso tivesse ciência de que foi decretada sua prisão preventiva.

Vá entender! – O governo de Pernambuco acusa em seu portal da Transparência dois repasses que totalizam R$ 6,6 milhões para Mozart Sales, ex-homem forte do Ministério da Saúde nas gestões Lula e Dilma, com a bandeira do PT, partido que compõe a gestão de Paulo Câmara como aliado, cujo casamento quer manter também nas eleições municipais, apoiando João Campos ao invés de Marília Arraes. Alega, porém, que o dinheiro não irá para Sales, mas, sim, para financiar a aplicação exames de Covid-19 no Estado, num programa coordenado por ele. Só não explica por que, então, a transferência milionária está em nome da pessoa física do aliado.

CURTAS

CURVA ASCENDENTE – O Estado voltou a registrar alta no número semanal de casos confirmados de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, em meio ao processo de reabertura das atividades econômicas. Nas três semanas anteriores, Pernambuco vinha registrando diminuição desse número. Nos últimos oito dias, foram 6.447 confirmações da doença. O maior número de casos registrados em uma semana no Estado foi entre os dias 17 e 23 de maio, com 8.298 novas pessoas com a doença. Nesse período, foi decretada quarentena mais rígida por 15 dias no Recife e outras quatro cidades da Região Metropolitana e os números começaram a diminuir, até esta semana.

ÊXODO AO INVERSO – Não assisti, porque estou longe de televisão há muito tempo, desde, aliás, que os telejornais viraram samba de uma nota só em cima da pandemia, mas soube que a TV-Globo trouxe, ontem, um especial retratando o fenômeno do êxodo ao contrário, de São Paulo para o Nordeste, no qual, só para Afogados da Ingazeira, haviam regressado mais de 500 pessoas. Tudo isso em função do desemprego gerado pela paralisação do processo industrial e o fechamento do comércio consequência do isolamento social da Covid-19. Se só para Afogados 500 fizeram o caminho de volta, imagine para o resto do Nordeste!

LIVE COM MENDONÇA – Na sequência das lives sobre o debate sucessório no Recife e o futuro da capital, hoje será a vez do pré-candidato do DEM, Mendonça Filho. Já na próxima sexta-feira, encerrando, está confirmada a presença da pré-candidata do PT, deputada federal Marília Arraes. De todos os postulantes, apenas João Campos, do PSB, e Patrícia Domingos, do Podemos, não aceitaram o bom, saudável e oportuno debate. A live, como sempre, acontece às 19 horas pelo Instagram do blog. Se você ainda não segue o meu Instagram vá no seguinte endereço: @blogdomagno.

Perguntar não ofende: Por que João Campos e Patrícia Domingos correram da live do blog como o satanás da cruz?

Publicado em: 21/06/2020