Coluna da quinta-feira

Nitroglicerina pura

O que virá à tona da apuração em torno da operação da Polícia Federal na chamada “Casa de Papel”, por ser empresa AJS Comércio e Representações Ltda, a quem a Prefeitura do Recife comprou R$ 81 milhões em respiradores e equipamentos médicos de proteção da Covid-19, ligada a uma gráfica conhecida e frequentada por políticos das mais diversas correntes e cor partidária no Estado, é algo explosivo, o combustível que estava faltando incendiar a campanha eleitoral no Recife.

Se a revelação, ontem, pela Polícia Federal, de que há uma faxineira como sócia da empresa assustou e chocou a sociedade, o que virá pela frente vai levar muita gente a perder noites de sono. O catatau do “laranjal” envolvido em mais de 100 firmas em torno da gráfica não pega apenas gente que se submete a emprestar seu nome e CPF. Vai muito além, chega próximo a políticos das mais variadas estirpes, do litoral ao Sertão. Não tem apenas o DNA do PSB, mas de praticamente todos os partidos abrigados na aliança oficial.

Por isso mesmo, diante de tudo que a Federal levantou, assessorada pelos órgãos de controle, novas operações poderão ocorrer para se chegar aos verdadeiros chefes “operadores”. É possível que as revelações bombásticas saiam a conta gotas, porque estão sendo checadas muitas informações em cima da papelada apreendida. “O ambiente está bastante carregado, tem muito tic tac por aí”, revela uma fonte do blog que teve acesso ao resultado das primeiras investigações.

Na verdade, a Polícia Federal já está sabendo muito mais além do que possa imaginar o PSB e seus mais competentes informantes. Por isso mesmo, seus agentes devem voltar às ruas e visitar gabinetes e casas de notórios o mais breve possível. Vem chumbo grosso por aí e a ordem dada por Brasília, por determinação do comando geral da PF, é ir a fundo, doa a quem doer.

Operação cearense – Em conjunto com a Receita Federal, a Polícia Federal (PF) deflagrou, ontem, no Ceará, duas operações simultâneas - Ásia 1 e 2 -, que investigam crimes contra a ordem tributária, como lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, associação criminosa, falsidade ideológica e descaminho, supostamente praticados por empresários, consultores e despachantes aduaneiros naquele Estado.  Ao todo, estão foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão e dois de prisão temporária, em Fortaleza, capital, e nos municípios de Eusébio e São Gonçalo do Amarante. Vários grupos empresariais estariam envolvidos nos crimes. A PF constatou haver um conluio entre proprietários de empresas importadoras de Fortaleza.

Prisões – Ontem, no Rio, aconteceu mais uma operação do Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção (Gaecc), do Ministério Público local e do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).  Foi de busca e apreensão contra acusados de desviar de dinheiro público destinado à compra de respiradores para pacientes que têm a Covid-19. Um dos presos, Carlos Frederico Verçosa Duboc, é superintendente de Orçamento e Finanças da Secretaria estadual de Saúde, contratado na gestão de Edmar Santos e estava na equipe do atual secretário, Fernando Ferry. Ele foi preso em casa, em Pendotiba, Niterói, Região Metropolitana do Rio. Duboc é servidor da Prefeitura do Rio e estava cedido ao Estado desde janeiro de 2019. Também foi preso, em casa, o empresário Anderson Gomes Bezerra. Policiais apreenderam documentos na casa dele no Lins de Vasconcelos, na Zona Norte.

Olho do furacão – Em Pernambuco, a empresa AJS Comércio e Representações Ltda, objeto de operação da Polícia Federal na última terça-feira, fechou contratos para fornecimentos de materiais hospitalares às prefeituras do Recife, Cabo de Santo Agostinho, Olinda e Paulista. Também estão na lista de suspeitas as prefeituras de Jaboatão dos Guararapes e Primavera, que entraram posteriormente na investigação. De acordo com a delegada de Combate à Corrupção, Andrea Pinho,  a AJS é de fachada, não tem estrutura nem capacidade operacional para os contratos milionários que conseguiu fechar. A PF também suspeita que se o seu quadro societário seja formado por laranjas, pois não moram em locais simples, não tem passaportes, ocorrendo um descompasso com o capital social que a empresa apresenta no valor de R$ 5 milhões.

A faxineira – Segundo a PF, uma das sócias iniciais da empresa AJS Comércio e Representações, que firmou contratos na ordem de R$ 81,1 milhões em equipamentos hospitalares com a Prefeitura do Recife, era uma faxineira moradora de um bairro da Zona Norte. Quando policiais federais chegaram no endereço da faxineira, ela confessou que assinou um documento a pedido de seu empregador, que não teve o nome divulgado. Atualmente ela não consta mais como sócia da FBS Saúde.

CURTAS

CAPITAL SUSPEITO – De acordo com o Ministério Público Federal, as apurações apontaram possíveis irregularidades em dispensas de licitação promovidas pela Secretaria de Saúde do Recife e vinculadas ao plano de combate à pandemia, com verbas do Sistema Único de Saúde. A Prefeitura teria feito a contratação de R$ 81,1 milhões em equipamentos hospitalares da FBS Saúde Brasil em 14 contratos realizados com dispensa de licitação. Chamou a atenção o fato de a empresa ter um capital social de R$ 100 mil e apenas um funcionário registrado, Gustavo Sales Afonso de Melo, embora as apurações indiquem outras pessoas como reais proprietários. Na operação Antídoto, foram realizados oito mandados de busca e apreensão.

CASSAÇÃO – Os deputados bolsonaristas Carla Zambelli, Alê Silva, Aline Sleutjes, Bia Kicis, Júnio Amaral, Carlos Jordy, Caroline de Toni, Filipe Barros, General Girão e Luiz Philippe de Orleans e Bragança entraram com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal contra a nomeação da deputada Joice Hasselmann para o cargo de Secretária de Comunicação Social da Câmara dos Deputados. Os parlamentares pedem a cassação da nomeação, feita na última quarta, 10, alegando ‘notável imoralidade administrativa, em razão de abuso de poder por evidente desvio de finalidade’. Segundo eles, desde o dia em que a ex-líder do governo foi nomeada, a conta oficial da Câmara dos Deputados no Twitter lhes imputa a pecha de propagadores de fake news’.

BOA NOTÍCIA – A necessidade urgente de domar o vírus que prejudicou as economias em todo o mundo estimulou uma enxurrada de empresas a anunciar pesquisas sobre vacinas ou tratamentos. A vacina pode sair antes do que se imagina. A comunidade médica deposita a maior parte de suas esperanças em grandes empresas farmacêuticas, como a AstraZeneca Plc e a Sanofi. As grandes empresas farmacêuticas estão tentando acelerar o desenvolvimento da vacina devido à urgência da pandemia do coronavírus.

Perguntar não ofende: Governadores e prefeitos não têm vergonha na cara de desviar dinheiro que era para salvar vidas?

Publicado em: 17/06/2020