Coluna da terça-feira

Influência socialista na Federal

O presidente Bolsonaro pressionou por mudanças no comando das unidades da Polícia Federal no Rio e em Pernambuco, segundo o ex-ministro Sérgio Moro. Mas, estranhamente, os ventos de renovação chegaram pelos ares cariocas e esqueceram as bandas de cá, como segunda etapa. O fato é que a delegada-chefe da PF continua sendo Carla Patrícia Cintra, com fortes laços dentro da estrutura de poder do PSB no Estado.

Ligada por afinidade familiar a Antônio Figueira, um dos mandachuvas do Governo Paulo Câmara, Carla serviu ao socialismo de mentirinha instalado em Pernambuco como corregedora-geral da Secretaria de Defesa Social, sendo elogiada publicamente pelo secretário Antônio de Pádua. "É muito importante a nomeação da primeira mulher como superintendente da Polícia Federal de Pernambuco, uma delegada da Polícia Federal que a bem pouco tempo era corregedora geral da SDS. Ela fez um trabalho brilhante à frente da Corregedoria, trouxe sua experiência para que a gente pudesse construir o Draco”, disse Pádua.

Para acrescentar: “O Governo do Estado agradece a essa participação e toda a história que ela tem à frente do combate à corrupção na Polícia Federal. A nossa ideia é aumentar essa integração". Isso foi dito na posse de Carla em dezembro do ano passado. De lá para cá, o tempo se encarregou de engessar as operações da Polícia Federal no Estado. A última, de 15 dias atrás, em cima da empresa que vendeu respiradores para porcos ao prefeito Geraldo Júlio, foi muito discreta, pegando apenas o secretário de Saúde como boi de piranha.

Fiz uma pesquisa e achei que, durante discurso de posse, a superintendente relembrou sua carreira da PF, afirmou que sua gestão será técnica e aberta ao diálogo. "Todo o planejamento estratégico da Polícia Federal, que é justamente voltado ao combate à corrupção, desvio de recursos públicos e tráfico de drogas, será mantido. Temos o desafio de integrar essa atuação com os demais órgãos públicos do estado. Estarei sempre aberta ao diálogo, apreciando o lado humano de cada policial", disse.

Bolsonaro passou a vida inteira cobrando a Sérgio Moro resultados operacionais em Pernambuco, até porque os principais líderes do PSB encastelados no poder respondem a processos cabeludos que dependem da boa vontade e da eficácia da PF, como os desdobramentos da Lava Jato, a Operação Torrentes, o affair Casa de Farinha e outros mais. Estranha mais ainda que em recente operação na Secretaria de Transportes e no DER, o governador sequer foi citado nem ninguém ligado a ele, quando de fato todas as autorizações de despesas passam por ele.

Tudo a ver – O pedido para que o então diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo substituísse a superintendente da Polícia Federal em Pernambuco estava ligado à política. Segundo Valeixo afirmou em depoimento à PF no dia 10 de maio deste ano, o então ex-ministro Sérgio Moro mencionou o fato de a superintendente, a delegada federal Carla Patrícia Cintra Barros da Cunha, ter ocupado um cargo de confiança no Governo de Pernambuco. Ela tomou posse em 2017, durante a gestão do governador Paulo Câmara (PSB-PE). O PSB integra a base de oposição ao presidente Jair Bolsonaro no Congresso Nacional. Não ficou claro, no depoimento de Valeixo, se esse ponto do currículo de Carla foi levantado pelo próprio Moro ou se o questionamento veio do Palácio do Planalto e apenas foi repassado pelo então ministro ao então diretor-geral.

Tudo confuso – O depoimento de Valeixo foi cheio de lacunas, pois também não explica que medida ele e Moro tomaram em relação à Superintendência da PF em Pernambuco. Também não foi detalhada qual a implicação política de Carla ter exercido um cargo no Governo do Estado e porque isso seria um problema. Nem mesmo o partido do governo de Pernambuco é apontado no depoimento. De acordo com Valeixo, em determinando momento o então ministro da Justiça o procurou, "de forma menos contundente" do que a questão da Superintendência do Rio de Janeiro – assunto sob pressão desde meados de 2019 –, para saber sobre "a possibilidade de troca da superintendente do Pernambuco".

Nomeação técnica? – De Valeixo, em seu depoimento: "O assunto sobre a mudança da atual superintendente de Pernambuco foi tratado com o então ministro Sérgio Moro e o questionamento dizia respeito ao fato de que a então titular da SR/PE [Superintendência da PF em Pernambuco] tinha exercido um cargo na Secretaria de Estado equivalente ao cargo de Secretaria de Segurança Pública." Em 2017, Carla foi nomeada corregedora da Secretaria de Defesa Social do governo de Pernambuco. Valeixo disse que a escolha da delegada fora "técnica", e que tinha ocupado "diversos cargos estratégicos naquela superintendência". O ex-diretor-geral disse ainda que a "época em que a Carla Patrícia foi delegada regional de Combate ao Crime Organizado.

Contradição – O caso de Pernambuco, como disse Valeixo, foi "menos contundente" que a situação no Rio de Janeiro. Na capital fluminense os problemas começaram em junho de 2019, e não em agosto, como se acreditava até então, e se estenderam até abril. Embora tenha explicado a questão política que cercava o nome de Carla, ao mesmo tempo Valeixo declarou, em aparente contradição, que "em nenhum dos casos [Rio e Pernambuco] foi apresentada nenhuma razão que justificasse a substituição, uma vez que não havia nenhuma reclamação sobre a condução dessas superintendências".

CURTAS

BOA NOTÍCIA – Os resultados dos exames de 21 casos suspeitos de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, deram negativo em Fernando de Noronha, segundo a Administração da Ilha. Com isso, não há mais registro de pacientes com suspeita da doença. Os 21 casos eram de moradores que haviam tido contato com as duas pessoas diagnosticadas com Covid-19 na quarta-feira (3) - uma mulher, de 56 anos, e um homem, de 50. Os dois foram voluntários do estudo epidemiológico, que analisa a circulação do vírus em Noronha, e deram positivo para o vírus.

START DE JULGAMENTO – O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começa a julgar, hoje, ações que pedem a cassação da chapa que elegeu o presidente Jair Bolsonaro e o vice, Hamilton Mourão, em 2018. As duas primeiras a entrarem na pauta tratam sobre ataques cibernéticos a um grupo de Facebook que teria favorecido Bolsonaro. A avaliação na corte eleitoral, porém, é de que estes questionamentos têm pouca chance de irem adiante, mas ainda há outras ações na lista para serem julgadas que preocupam mais o Palácio do Planalto, como as que tratam de disparos de mensagens em massa pelo WhatsApp.

HOJE TEM GILMAR MENDES – As lives nacionais desta semana vão dar o que falar. Hoje, o nosso convidado é o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, que vai tratar da crise envolvendo Governo e Judiciário. Na próxima quinta-feira, teremos o ex-presidente Michel Temer (MDB), que será estimulado a tratar da crise política nacional. Ex-presidente também da Câmara dos Deputados, Temer abordará ainda os momentos de maior conflito e tensão da sua passagem pelo Palácio do Planalto. Se você ainda não acompanha a nossa conta pelo Instagram, vá lá e nos siga pelo @blogdomagno.

Perguntar não ofende: Os processos que começam a ser julgados pelo STF, hoje, podem abrir a janela do impeachment de Bolsonaro?

Publicado em: 08/06/2020