Coluna da segunda-feira

Os Três Porquinhos e o Lobo Mau

Era uma vez três porquinhos que viviam sem ter com o que se preocupar. Os três achavam que eram legais, que todo mundo gostava deles, e que bastavam sorrir e inventar algumas histórias da carochinha para continuar a mandar na Floresta. Ouviam muito os conselhos da mãe. Ela não gostava de aparecer, mas era quem de verdade mandava neles e puxava a orelha suína de um ou de outro quando achava que a família não estava sendo bem tratada.

Sempre juntos, os três porquinhos dividiam tarefas e se ajudavam mutuamente quando percebiam que havia algum deles em apuros. É verdade que também contavam com a colaboração de algumas espécies bajuladoras do Reino Animal, como pavões, bichos-preguiça, cordeirinhos e até cães Pitbull, desses que atacam a própria sombra para proteger o dono.

E assim se passavam os dias, com os porquinhos engordando e chafurdando na lama. Gostavam muito de ar-condicionado, de tomar decisões de gabinete, de inventar leis e decretos apenas para parecer que estavam trabalhando. Mas nunca escutavam o povo da floresta. Povo mesmo servia para tirar as fotos que os porquinhos postavam nas redes sociais. Todos sorrindo, num clima de paz e alegria.

Mas isso era ilusão. O povo da floresta não estava era nada satisfeito com os porquinhos. Foi descoberto que os três estavam comprando alguns equipamentos caros e sem licitação que seriam usados, adivinhem, apenas em porcos. E que o dinheiro mal gasto nestes itens para porcos pertenciam ao povo da floresta, que andava meio doente, precisando de cuidados especiais.

Sabendo disto, o Lobo Mau da Polícia Federal apareceu e foi até a casa dos porquinhos. Ele quis mostrar para os três que na floresta também existe lei. Assustados, correram logo para a mãe, que aconselhou: “Lembrem-se do que eu sempre digo. Tudo o que fazemos nesse mundo, temos de fazer da melhor forma”. Dizem que a casa dos porquinhos quase desmoronou no primeiro sopro e que se o Lobo Mau resolver voltar – e parece que vai – a casa vai cair de vez na cabeça dos malvados e traquinos porquinhos.

Vendidos sem teste – Atende pela razão social de Bioex Equipamentos Médicos a empresa responsável pela fabricação de parte dos respiradores pulmonares contratados pela Prefeitura do Recife, alvo de questionamentos do Ministério Público de Contas (MPCO) e do Ministério Público Federal (MPF), investigada pela Polícia Federal que deixou nu o rei do Recife. Ela começou a fabricar esses equipamentos no final de março, aproveitando a demanda provocada pela Covid-19. Os respiradores passaram por provas técnicas, mas o teste com animais só aconteceu em maio, numa experiência com porcos. Nessa data, parte dos equipamentos já havia sido vendida e entregue na capital pernambucana. A experiência realizada com os porcos foi divulgada em vídeos nas redes sociais.

Devolução – Pelo menos quatro cidades devolveram respiradores pulmonares que teriam sido testados apenas em porcos e não tinham aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A compra dos equipamentos pelas prefeituras de Pesqueira e Riacho das Almas, no Agreste, e Iguaracy e Cabrobó, no Sertão, veio a público após a revelação de que os respiradores da fornecedora teriam sido testados apenas em animais. A fabricante dos respiradores citados é a mesma dos equipamentos envolvidos na Operação Apneia, deflagrada pela Polícia Federal para investigar supostas irregularidades em contratos celebrados por meio de dispensas de licitação pela Secretaria de Saúde do Recife. No caso das cidades do interior, entretanto, a compra foi realizada através de outra empresa, de acordo com as prefeituras.

A grande pergunta – Para o ex-ministro Mendonça Filho, pré-candidato do DEM a prefeito, que foi para a linha de frente contra esse mega escândalo, parece inacreditável que o prefeito tenha comprado respiradores exclusivos para uso em porcos. “Enquanto as pessoas padecem em hospitais do Recife assistimos a tamanha crueldade e irresponsabilidade com o dinheiro público. A Prefeitura inaugurou 333 leitos de UTI para a covid-19. Desse total, cerca de 200 continuam fechados esperando equipamentos como respirador pulmonar para funcionar”, afirmou, para completar: “A pergunta que fica é: o prefeito avalia que equipamentos experimentais, sem registro na Anvisa, nunca testados em seres humanos, e testados exclusivamente em porcos, seria adequado a serem utilizados por seres humanos?”

Vergonha – Enquanto Geraldo Júlio se emporcalha, o governador Paulo Câmara silencia diante de outro mega escândalo envolvendo operações fraudulentas com o dinheiro federal destinado a salvar vidas pela Covid-19: a compra de respiradores em consórcio com seus colegas governadores do Nordeste. A empresa alvo da operação Ragnarok, investigada por vender e não entregar respiradores ao Consórcio do Nordeste, nunca teve os equipamentos oferecidos na venda, conforme destacou a delegada Fernanda Asfora, coordenadora do setor de Crimes Econômicos e Contra a Administração Pública. Pernambuco está no consórcio e também participou da compra do material que não foi entregue pela empresa Hempcare. Além de não entregar os equipamentos, a empresa é apontada pela não devolução da quantia paga pelo Consórcio. Outra empresa, a Biogeoenergy também é alvo de investigações.

CURTAS

NÚMEROS SOMEM – O Ministério Público Federal abriu procedimento extrajudicial para apurar o atraso e a omissão na divulgação de dados sobre o novo coronavírus no País. A Procuradoria enviou pedido de cópia dos atos administrativos do Ministério da Saúde que resultaram nas mudanças promovidas pelo governo e cobrou esclarecimentos sobre os fundamentos técnicos sobre o caso. Desde o boletim de sexta-feira passada, o Governo Federal deixou de apresentar o número acumulado de mortes por Covid-19 desde o início da pandemia, informação que sumiu do site oficial sobre a doença. Os balanços também passaram a ser publicados às 22h.

FALTA INVESTIGAÇÃO – Na declaração dada pelo governador Paulo Câmara (PSB), em sua conta no Instagram, ontem, ficou evidente a discriminação do Estado com os outros municípios. Ele fez referência ao Recife como ação prioritária e desconsiderou municípios como Jaboatão, Olinda, Caruaru, Petrolina e todos os outros. Até agora, o Estado repassou R$ 150 milhões para o Recife. Para os demais 184 municípios, a soma do que liberou fica bem abaixo. Isso mostra uma ação política e não colaborativa ou solidária. É vergonhoso, ainda mais quando os recursos repassados foram usados de forma indevida e alvo de investigações envolvendo corrupção. O município de Jaboatão, por exemplo, recebeu apenas R$ 16 mil, mesmo tendo a segunda maior população do Estado. A pergunta que não quer calar: onde estão os organismos de controle?

RECIFE EM DEBATE – Este blog começa, hoje, às 19 horas, em lives especiais pelo Instagram, a debater os problemas do Recife com os seus pré-candidatos. A estreia se dá com Alberto Feitosa, do PSC, escolhido por ordem de sorteio. Serão duas lives por semana, sempre às segundas e sextas-feiras, preservando as entrevistas nacionais pelo mesmo canal, o Instagram, das terças e quintas. Amanhã, nosso convidado é o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes. Se você ainda não acompanha a nossa conta pelo Instagram, vá lá e nos siga pelo @blogdomagno.

Perguntar não ofende: Por que João Campos silencia diante do bombardeio a ele feito pelo deputado Kim Kataguiri?

Publicado em: 07/06/2020