Coluna da sexta-feira

Moro e o batom na cueca

Batom na cueca é uma expressão que fala de algo que está na cara, flagrante, que todo mundo vê. É o que o ex-ministro Sérgio Moro acaba de fazer ao virar colunista do jornal O Globo, das Organizações Globo, a quem deve, claro, ter sido serviçal na informação privilegiada ao longo do tempo em que coordenou a operação Lava Jato, para prender Lula e deixar Aécio Neves e tantos outros soltos, e recentemente como auxiliar do presidente Bolsonaro na pasta de Justiça e Segurança Pública.

Os herdeiros de Roberto Marinho praticam com Moro aquela velha máxima de “uma mão lava a outra e as duas lavam a ...”. Desempregado, Moro foi salvo pelo gongo dos dólares que a Globo faturou num rio de grande correnteza dos governos passados, incluindo a quadrilha do PT, todos generosos com o plim-plim. Moro se revela um espertalhão do que ele quer ser protagonista – a nova política. Quando, na verdade, é um vendelhão da política mofada, asquerosa e repugnante do País.

Na época de Moro-Lava Jato, vale recordar, a Globo era a primeira TV a fazer ao vivo as espalhafatosas operações da Lava Jato, a maioria com exclusividade. Uma vergonha! Da mesma forma, quando ministro, o Moro velhaco abriu até as portas da intimidade da sua casa para os repórteres do Fantástico. Foi a mesma Globo, por informação em off de Moro, que deu a sua saída em primeira mão do Governo.

Teve acesso, também, à sua carta de despedida, antes mesmo dela chegar ao conhecimento do seu ex-chefe, o presidente Bolsonaro, o que revela, verdadeiramente, o seu fraco caráter e sua duvidosa personalidade. O batom da cueca é visto pela sociedade como simples deslize resultante do preceito de que “os fins justificam os meios”, isto é, mesmo que por meios por vezes inescrupulosos para o atingimento de fins de conveniência parcial e duvidosa, o que contraria o Estado Democrático de Direito.

Tudo tem uma explicação, menos batom na cueca. Recomendo ao ex-ministro, agora em nova lua de mel com as Organizações Globo, o refrão de uma composição do forrozeiro Dorgival Dantas, que ele deve ter ouvido muito por aí, porque se encaixa perfeitamente na relação dos interesses escusos que cultiva. “Você não vale nada/Mas eu gosto de você!/Você não vale nada/Mas eu gosto de você!/Tudo que eu queria/Era saber porquê?!?/Tudo que eu queria/Era saber porquê?”

Livre do cão – “Graças a Deus”, o governo ficou “livre do ex-ministro Sergio Moro”, assim reagiu, dias atrás o presidente Bolsonaro, para quem Moro foi “covarde” durante a reunião interministerial do dia 22 de abril. Bolsonaro mencionou o fato de que, na opinião dele, Moro vinha tomando atitudes que contrariavam a ideologia do governo. Ele citou como exemplo a portaria, assinada pelo então ministro, que previa detenção de pessoas que não cumprissem regras de isolamento social. “Por isso que naquela reunião secreta o Moro, de forma covarde, ele ficou calado. Então é isso que estava acontecendo. Ele queria ainda uma portaria depois que multasse quem estivesse na rua. Esse era o cara que estava lá, perfeitamente alinhado com outra ideologia que não era a nossa. Graças a Deus ficamos livre dele”, afirmou.

Defesa pelas redes – O ex-ministro culpa Bolsonaro por tudo que falam dele pelas redes sociais. Recentemente, postou o seguinte quando abordou a temática das fake news: “Tenho visto uma campanha de fake news nas redes sociais e em grupos de WhatsApp para me desqualificar. Não me preocupo; já passei por isso durante e depois da Lava Jato”. Na sequência, em uma referência ao slogan de campanha de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, Moro escreveu: “Verdade acima de tudo. Fazer a coisa certa acima de todos”. O presidente com frequência afirma: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”.

Votar, pode! – Ao autorizar, ontem, as convenções partidárias online, entre julho e agosto, o TSE deu, mais uma vez, uma demonstração de que fará a eleição municipal deste ano a qualquer custo, mesmo o País já tendo ultrapassado a terrível marca fúnebre dos 30 mil óbitos. Segundo a decisão, os partidos têm autonomia para utilizar as ferramentas tecnológicas que entenderem necessárias para as convenções. O Tribunal respondeu a uma consulta feita por parlamentares. As convenções deverão seguir as regras e procedimentos já definidos pela Justiça Eleitoral. O relator, ministro Luís Felipe Salomão, decidiu submeter os questionamentos ao plenário do TSE. Um parecer elaborado pela área técnica da Corte afirmou não haver impedimento jurídico para a realização de convenções partidárias de forma virtual. Votar pode, mas trabalhar não.

Escândalo federal – Uma força-tarefa do TCU encontrou indícios de fraudes em 55 contratos com empresas de tecnologia da informação (TI) firmados pelo governo federal que custaram R$ 500 milhões aos cofres públicos. Entre as irregularidades encontradas estão desde a falta de justificativa para as contratações até a ausência de detalhamento do serviço que seria prestado, o que levou os auditores a apontarem um potencial risco de corrupção e desvio de dinheiro. A investigação foi iniciada em 31 de julho do ano passado e envolve contratos em 11 ministérios, incluindo Saúde, Cidadania, Educação, Economia e Infraestrutura, além de 17 órgãos do governo. Nem todos foram fechados na gestão de Jair Bolsonaro, mas receberam aditivos ou foram mantidos em vigor pela atual gestão. Do total apontado como suspeito de irregularidades, pelo menos R$ 100 milhões ainda estavam vigentes em março de 2020.

CURTAS

DESCENTRALIZAR – Presidente da Amupe, o prefeito de Afogados da Ingazeira, José Patriota (PSB), pregou na conferência de ontem dos prefeitos com o governador, a necessidade de planos descentralizados para reabertura do comércio. “Já se começa a reabertura lenta e gradual com lojas de revenda de materiais de construção. Nós precisamos estabelecer protocolos para cada segmento, são 32. E nessa discussão nós estamos descentralizando o plano apresentado pelo governador. Ele traz diretrizes gerais, estudos que apontam a situação de contaminação e também, naturalmente, precisamos levar em conta a estrutura de saúde disponível nas regionais, planos descentralizados”, afirmou.

FRUSTRAÇÃO – Diante da tragédia das torres gêmeas no Recife, o PSB não deu um pio. A patroa Sarí Corte Real, autuada por homicídio culposo do garoto que despencou do 9º andar, filho da sua empregada doméstica, é casada com o prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker, do partido do governador Paulo Câmara e do prefeito do Recife, Geraldo Júlio. De tão estarrecedor, o caso foi parar na mídia internacional. Acusada por negligência, Sarí chegou a ser presa, mas logo se libertou mediante o pagamento de uma fiança de R$ 20 mil. Foi um caso típico de Casa Grande & Senzala. A patroa mandou a empregada passear com os cachorros enquanto o filho, preto e filho de pobre, sentindo a falta da mãe, acabou se jogando do 9º andar por descuido da dona da casa.

PATRÍCIA DE FORA – Dos pré-candidatos a prefeito do Recife, apenas dois devem ficar de fora das lives da largada sucessória municipal, que começam na próxima segunda-feira com Alberto Feitosa, do PSC: a delegada Patrícia Domingos, do Podemos, que não aceitou o convite, e João Campos, do PSB, que até o momento não se manifestou nem tampouco a sua assessoria. As entrevistas serão as segundas e sextas, enquanto as lives nacionais ficam preservadas às terças e quintas. Na próxima terça, aliás, teremos o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

Perguntar não ofende: Uma fiança vale mais do que uma vida?

Publicado em: 04/06/2020