A reinvenção do Brasil e o Nordeste

Por Antônio Campos*

Não é de hoje que ouço as múltiplas frases sobre repensar o Brasil, repensar o Nordeste. Recordo, nos tempos de escola, dos professores de história que atribuíam ao imperador brasileiro, Dom Pedro II, o sonho de levar as águas do São Francisco aos mais distantes redutos da nossa região. A obra foi se tornando realidade a partir de 2005, com o projeto. Foram passados mais de 170 anos desde o sonho do imperador para parte da inauguração dessa obra, que melhor integrou o Nordeste, sair do papel, em março de 2017.

Foram muitos pensadores sobre o Nordeste. Uns com olhares para a sociologia, antropologia, economia, como Gilberto Freyre e Celso Furtado. Muitos outros navegaram pelo imaginário da poesia, do romance e dos contos, como Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, Lêdo Ivo, João Cabral de Melo Neto e uma lista tão longa de nomes que, se citados todos, extrapolariam o espaço inteiro deste artigo.

Seguindo essa tradição, novos pensadores do Nordeste apontam horizontes e perspectivas. Recentemente, numa longa entrevista, o filósofo Mangabeira Unger tratou do desenvolvimento do Brasil e a participação, integral, do Nordeste.

O professor de Harvard destacou que o Nordeste pode reinventar o Brasil como uma base de transformação social, por meio de movimentos conjugados. Na revista Nordeste, na edição de maio deste ano, citou:

 “Uma vitalidade empreendedora assombrosa, porém, desequipada, e uma inventividade tecnológica popular que, com ainda com educação técnica relativamente rudimentar, começa a alçar voo. Exemplo do primeiro movimento é o complexo de confecções na área de Toritama e Caruaru no interior do Pernambuco - um turbilhão de atividade empreendedora operado por empresas médias associadas a mini-empreendimentos – os "fabricos" que empregam práticas e tecnologias de muitos estágios diferentes da evolução industrial do Ocidente nos últimos duzentos anos. Exemplo do segundo movimento é a tecnologia eficiente e autóctone, de fabricação de mel, que encontrei em Picos no interior do Piauí, pronta para rivalizar com as tecnologias do setor em qualquer lugar no mundo”.

Atenta às questões do Nordeste, a Fundação Joaquim Nabuco, por meio da Diretoria de Pesquisas Sociais e do Seminário de Tropicologia, vem contribuindo com propostas para nossa Região, considerando as peculiaridades de cada microrregião. Agora, mais ainda, diante do cenário sanitário do Covid-19, posto que devemos contribuir com propostas duradouras e de transformação. Como bem disse Mangabeira Unger, hoje somos chamados a enfrentar uma desigualdade social que deverá crescer em razão da Covid-19.

Em épocas de pandemia e pós-pandemia, precisamos preservar os programas que ajudam os mais vulneráveis. O Governo Federal vem dando auxílio emergencial a mais de 59 milhões de brasileiros. As desigualdades sociais precisam ser enfrentadas e minimizadas no mundo e no Brasil, diminuindo as tensões sociais.

Pensar o desenvolvimento do Brasil a partir do Nordeste é algo que instiga e desafia a todos. Fomentar a educação é a única forma de tornar isso possível. Como disse o nosso patrono, Joaquim Nabuco, em O Abolicionismo:

“Será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância”. A grande abolição, na atualidade, será aquela do desenvolvimento pela Educação e na Educação, com o viés de combate às desigualdades sociais.

*Advogado, escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras e presidente da Fundação Joaquim Nabuco

Publicado em: 01/06/2020