A ponte da Grest Western

Por Paulinho Muniz*

Trazida pelos ingleses da Great Western lá no início do século 20. A ponte veio do Reino Unido de navio, totalmente desmontada. 

O Trem dos ingleses não trouxe e nem levou somente passageiros. Trouxe o progresso e  desenvolvimento. Mesmo antes da inauguração da Estação Sanharó, em novembro 1906, a construção da via férrea é um tema à parte no progresso da então Vila Sanharó, lá atrás, bem no início do século XX. Conta-se com orgulho que a então vila recebeu por 03 anos, passageiros oriundos de Pesqueira, da Vila Rio Branco que antecedeu Arcoverde, da Lagoa de Baixo - Sertânia, dos pajeuzenses e centenas de outros sertanejos que encurtavam a viagem à capital, pegando o trem em Sanharó.

Décadas depois, o industrial Jurandir de Brito, da Fábrica Peixe, assíduo frequentar da boemia sanharoense, rotulou o distrito, como "sala de visitas de Pesqueira", tal a comunicabilidade e afetividade dos sanharoenses com os visitantes.

Alguns nativos da vila tornaram-se fornecedores de dormentes e montaram boas estrutruras que envolviam animas para tracionar madeiras, numa logística difícil, já que árvores eram cortadas em muitos lugares diferentes, inclusive em serras íngrimes, segundo conta ZeNilson Fernandes, uma enciclopédia viva da história sanharoense. Seu avô Manoel Fernandes Bezerra. Antonio Rodrigues de Freitas - Toinho Rodrigues, entre outros,  são citados dentre os maiores fornecedores. Montaram uma companhia de jumentos, para tal finalidade.

Outros dois consultores da nossa história, em especial da chegada do trem, José Carlos Leite - Carrinho vereador e Paulinho Foerster - Paulo José Elias Foerster, vêm ao longo do tempo, contribuindo para que essa e outras histórias não pereçam. 

A Ponte, tema central dessa crônica tornou-se um acervo monumental e integrou-se à história da vila, do distrito e da cidade. Há uma enorme acervo de fotos espalhadas entre os habitantes. Particularmente, lembro das tardes domingueiras quando meu pai - Paulo Muniz, me levava ao campo pra assistir as memoráveis partidas do nosso Grêmio Lítero Esportivo. Segurava a minha mão para que eu caminhasse sobre os dormentes, confiante que àquela mão jamais me soltaria.

Muitos de nós relebram quando foi construída a passarela para pedestres. Um alívio, principalmente para os moradores da Barão de Buíque e da Rua 7 de Setembro, Severo Silvano e o Sítio das Moças.

Nas temporárias cheais do Ipojuca, ela servia de transpolim, para os saltos dos banhistas afoitos que se jogavam de ponta cabeça das suas altas varandas. Era um exibicionismo apreciado por muitos, em especial das jovens que apreciavam o feito.

O tempo, sem ele, encarregou-se de danificar a ponte prateada, tal como fosse de alumínio. A última intervenção de manutenção, aconteceu nos anos 60, portanto, há mais de cinquenta longos anos. As intempéries da natureza se encarregaram de danificá-la. A pronfundas fendas onde a ferrugem adentrou, formando feridas quase que fatais. 

A Grest Western dos ingleses, repassou-a para a União através da Rede Ferroviária Federal que, por conseguinte, regionalizou-a para a Rede Ferroviária do Nordeste, até que a burocracia governamental sepultou-a numa reparticão qualquer que destinou-o todo o patrimônio ao perverso abandono.

O filme da história da Ponte Férrea de Sanharó está no seu epílogo. Triste epílogo! Não há responsáveis para assumir à sua recuperação. Não há ente governamental que chame para si, à recuperação física do monumento. Há sim: um fim trágico, previsto para proximamente quando a velha e abandonada ponte sucumbir de vez, sobre o leito do não menos agredido Rio Ipojuca.

*Editor do Blog do Abelhudo

Publicado em: 31/05/2020