A Pensão Natal e o velho mijão

Matuto de raiz, criado a 386 km da capital, nas campinas do Pajeú de Rogaciano Leite, Pinto do Monteiro e Cancão, numa cidade que todo mundo até hoje ainda acha o nome estranho, Afogados da Ingazeira, botei os pés no Recife pela primeira vez me arrastando numa alpegarta de Lampião, depois de enfrentar uma viagem de trem que durou 12 horas.

Nos saudosos anos 70, da Jovem Guarda e dos Beatles, em que as danças eram agarradinhas, cheirando literalmente o cangote das meninas, não havia ônibus no Sertão. Carros eram raros, coisa de gente rica. Meu pai Gastão Cerquinha, comerciante de miudezas em geral, só viajava de trem e a cada toque do sino na estação levava um dos nove filhos para fazer o batismo de matuto em cidade grande.

O poeirão comia solto. Chegávamos amarelados ao final da linha, seja na grande expectativa da ida ao Recife ou na felicidade da volta ao torrão natal. Existiam também os trens de carga, que não comportavam passageiros, só a solidão dos maquinistas. A esses, papai só recorria para enviar as mercadorias compradas em várias lojas de atacado no agitado e apinhado Cais de Santa Rita, onde a família Sultanum, dos meus amigos Paulo, Zé Maria, Nicolau e Tonheca, já ganhava rios de dinheiro.

Meu pai nos hospedava na Pensão Natal, na rua da Concórdia, colada aos bordéis que não fechavam as portas do prazer e da boemia em nenhum instante do dia. Tinha escadas e quartos colados um no outro, sem ar nem ventilador. O banheiro era coletivo e para chegar até ele na madrugada se corria o risco de bater a cabeça na parede tamanha a escuridão. E de não conseguir achar o quarto certo na volta, porque as portas eram todas iguais e encangadas.

Sobre esse detalhe, uma história que ficou não apenas na minha memória, mas de todos os meus oito irmãos. Era contada por papai, que caía no riso fácil e nos divertia. Parece estar mais para o reino do folclore e da fantasia. O fato é que, segundo ele, um hóspede já avançado na vida, foi ao banheiro de madrugada e na volta perdeu o caminho da venta e saiu batendo de quarto em quarto.

Gritava acordando todos com a pergunta hilariante e em alto som:

"Foi daqui que saiu um véi pra mijar?

Publicado em: 31/05/2020