Na garupa da moto

Vez por outra, me pedem para contar histórias sobre a grande figura que é meu pai Gastão Cerquinha, 98 anos, comerciante e político por vocação, servidor público federal dos Correios e Telégrafos para completar a renda para a compra do pão que não faltava à mesa sempre farta em torno dos nove filhos em Afogados da Ingazeira.

Papai se virava nos trinta. Até lotérica teve. Quem entregava as cartelas das apostas era eu, procedentes de Arcoverde, cidade mais progressista, onde os cartões eram picotados. Na verdade, fui o filho cobrador, pois até as parcelas dos lotes vendidos por ele na área onde funciona hoje a sede social da AABB o escalado para bater na porta dos devedores era eu.

Papai fazia negócios com tudo e com todos. Vendia bode, bois, vacas, sítios inteiros. "Se ele pudesse, vendia até a mulher", ouvi muito essa frase de mamãe Margarida, que morreu sem ter a mínima noção dos rolos que meu pai se metia.

Certa vez, recebi um telefonema dele no ano em que promovemos uma grande festa em comemoração aos seus 90 anos. "Venha aqui para uma missão que eu só confio em você", ordenou. No dia seguinte, parti do Recife rumo à nossa Afogados da Ingazeira sem ter a mínima noção do tamanho da bronca.

Chegando lá, revelou que estava metido numa bronca com uma escritura de um terreno vendido a um cliente na vizinha cidade de Ingazeira, a 26 km. Não sou advogado, mas fui lá e depois de muitas negociações cheguei a bom termo.

Mas na saída, ao me despedir tomando um gole de um cafezinho quente, a surpresa de mais uma traquinagem do velho, já com 90 anos, vale a ressalva.

O cara olhou para mim e perguntou: "Você veio de moto também?" Respondi não e quis saber do porquê também. Ele não escondeu o que papai escondia dos filhos: "Porque seu pai esteve aqui há 15 dias e veio na garupa de uma moto". Quase tive um troço.

Publicado em: 30/05/2020