Soldados da sa├║de

Por Silvio da Silva Caldas Neto*

O nosso bem mais precioso é a vida e todas as nossas atitudes têm como maior objetivo defendê-la. Para algumas pessoas, os ganhos obtidos podem ser uma justificativa para arriscá-la. Quem se alista nas forças armadas sabe que poderá ser convocado para uma guerra. Mas, em momentos de grande ameaça, seria esperado que seus instintos agissem em sua defesa. Daí a necessidade do fortalecimento de valores como hierarquia e disciplina, em um patamar acima da própria existência. Senão, como evitar a deserção de soldados na hora de enfrentar a morte?

Na guerra que travamos agora, os soldados são os profissionais da saúde. O inimigo é implacável e a chance de serem vitimados no campo de batalha é enorme. Todos fizeram juramentos e devem obediência aos seus códigos de ética. Durante a formação, foram preparados para salvar pessoas, mas ninguém disse a eles que o custo disso poderia ser a própria vida. O dever de prestar socorro a uma vítima de acidente, de perder viagens, de sacrificar o convívio com a família, para estar à disposição do paciente, tudo isso foi ensinado e passou pela cabeça no momento do juramento. Mas perder a vida? Para isso ninguém está plenamente preparado. Ainda assim, esses profissionais estão combatendo no front, enfrentando, às vezes sem proteção adequada, a soma de todos os medos. Nunca viveram tamanho estresse. Um soldado não vai pra guerra sem capacete, sem uniforme, sem botina, sem cantil e sem fuzil. Os profissionais de saúde vão. Por isso são muito justas as homenagens feitas mundo afora a esses bravos.

Enquanto isso, os cursos de saúde se esforçam para entregar mais soldados, que vão formar novas fileiras à medida que colegas são atingidos nas trincheiras. Neste semestre, a Faculdade de Medicina do Recife – UFPE entregou à sociedade mais uma turma de médicos que já estão no combate. Foi uma colação de grau sem pompas, sem parentes, sem longos discursos, sem grandes plateias. Colaram grau em pequenos grupos, todos de máscaras, guardando distância. Mas foi histórica. Não só pelo momento, mas também porque, ao jurarem fidelidade à profissão, certamente passou na cabeça deles um drama com que as últimas gerações de médicos jamais sonharam. Entraram alunos. Serão heróis.

*Médico, professor e diretor do Centro de Ciências Médicas da UFPE

Publicado em: 29/05/2020