Uma reflex√£o sobre a quarentena no Brasil

Por Dirac Cordeiro*

Estou neste regime de quarentena há mais de 60 dias, como boa parte da população brasileira (ou daquela que acredita que se deveria estar). Há quase 20 anos, venho estudando as séries epidemiológicas. Publiquei, com o professor Gauss Cordeiro – um dos maiores estatísticos do mundo – um artigo numa revista internacional canadense sobre a grande epidemia da dengue no estado de Pernambuco e no Brasil; chegando à conclusão da impossibilidade da erradicação da dengue no país.

Até hoje, quando se fala no comportamento da série epidemiológica da dengue, esse artigo é citado (Model of combined prevision: an application of the monthly series of dengue notifications in the State of Pernambuco in: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/03610910701236065?tab=permissions&scroll=top&) – tanto aqui no Brasil, como no exterior.

Soube do recluso de ir e vir quando a pandemia já havia se instalado no mundo (no final de março). No entanto, numa quinta-feira, fui dar uma volta pelo centro da cidade e fiquei estarrecido com a quantidade de pessoas sem distanciamento algum em uma fila para receber os R$ 600,00. Não acreditei e pensei ser um evento isolado. No entanto, ao passar no bairro de Casa de Amarela, o quantitativo de pessoas aleatórias foi assustador.

No Brasil, existe o equivalente a 38 milhões de pessoas na informalidade, ou seja, sem nenhuma perspectiva de emprego a curto e médio prazo. Mantendo o estrato da informalidade no Brasil, temos uma projeção de aproximadamente 1 milhão de informais para o estado de PE que vão passar a procurar emprego no dia a dia – em comparação com os “privilegiados”, os quais manterão o seu status quo.

Como criadores da segregação de classes, a zona de conforto poderá ser mantida por um longo período. Talvez um gestor, como o estimado Eduardo Campos, teria tido a chance de mudar a história do Brasil como Presidente da República; e como político de nascença estaria nesses eventos, com certeza presente, orientando e buscando maior facilidade aos seus devotos eleitores. Não tenho dúvida disso.

Voltando aos futuros desamparados, há de se perguntar: ficarão desamparados eternamente ou buscarão sobreviver no outro lado da obscuridade? É importante salientar que “fabricar dinheiro” tem limites e pode prejudicar imensamente a imagem do Brasil no mundo globalizado. Pode ocorrer uma fuga de capital internacional descomunal tendo como resposta um efeito avassalador no desemprego. Efeito sem retorno, no qual pode se chegar a 35% da PEA – algo em torno de 28 milhões de desempregados.

Além disso, países mais ricos, como os Estados Unidos e a China, com mais dinheiro para ajudar empresas em dificuldades, apresentam realidades diversas das nações com menor poder financeiro, como o Brasil, a Argentina e o México. Esses países terão muito mais casos de falências no setor privado. O agravante irreversível se dará quando as grandes empresas, com acesso às linhas de financiamento externo, passarem a se aproveitar do espaço deixado no mercado por pequenas e médias empresas que sucumbirão. O inexorável planejamento do PERT/CPM traçado para o Projeto da Pandemia pode levar as nossas futuras gerações para um retardamento intelectual sem precedentes, amparado em variáveis – disso, teremos a brutal concentração de renda e insegurança institucional, com arrastos de humanos e financeiros, que ficarão marcados na história contemporânea.

*Doutor em Engenharia Civil (Formação Estatística-Matemática)

Publicado em: 29/05/2020