Nada de ideologia, é delinquência

Por José Nêumanne*

Há quem acredite que existe uma ala ideológica do governo Bolsonaro, que teria protagonizado reunião exibida em vídeo, mas, de fato, o que salta aos olhos são crimes do chefão e dos chefetes

Muitos comentaristas e cronistas das atividades políticas no Brasil acostumaram olhos e ouvidos do público assaltado à existência de um ente imaginário que chamam de “ala ideológica do governo Bolsonaro”. A oportunidade dada pela liberação do sigilo judicial da reunião do tal Conselho de Governo realizada em 22 de abril e vista por quem se habilitou um mês depois, por decisão do decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, deu a todos, comunicadores e receptores da mensagem, o azo de descobrirem dois fatos elementares. Primeiramente, os ditos “ideológicos” mereceram do chefão, Jair Bolsonaro, aprovação às vezes manifestada em sonoras gargalhadas. Em segundo lugar, “ideologia” neles em nada se equipara às definições da palavra usada no embate político desde os tempos da luta entre girondinos e jacobinos na Revolução Francesa. Não se realizou em momento nenhum das duas horas de vídeo uma manifestação da primeira definição de ideologia no Dicionário Aurélio, o mais consultado no Brasil: “ciência da formação das ideias; tratado das ideias em abstrato; sistema de ideias”. Ou houve?

Vamos tirar aqui a prova dos noves. Que ideologia está por trás dos três mais graves crimes cometidos pelo chefão de todos os chefetes reunidos naquela assembleia, que em nada lembra a ágora do debate em Atenas, na Grécia antiga? Que crença ou conjunto de crenças de algum sistema pode justificar a interferência do presidente da República na nomeação do superintendente da Polícia Federal (PF) no Rio de Janeiro para blindar de investigação parentes e amigos dele? Em que ponto na história das ciências políticas se destina à esquerda ou à direita, definição ideológica clássica da luta política desde os tempos dos embates entre Danton e Robespierre, que lhe sirva para determinar aos ministros da Justiça e da Defesa que liberem a venda de armas de fogo a cidadãos para receberem à bala policiais que cumprirem determinações sanitárias emanadas de prefeitos e governadores, tão eleitos pelo voto popular quanto o autor da sugestão? Em que livros de teoria ou prática da ciência política se confere ao chefe do poder democrático instalar um serviço clandestino próprio de informações, à margem do que é determinado por lei?

Pode-se argumentar que os bandos armados não são inusitados na luta por poder. O partido nacional-socialista do austríaco Adolf Hitler na Alemanha de Weimar criou as Sturmabteilungs (operações tempestade, popularmente conhecidas como as tropas de assalto SA). O socialista italiano Benito Mussolini chegou ao poder obtendo a autorização do covarde rei Vittorio Emanuelle para seus fasci di combattimento, que assassinaram outro socialista, Giacomo Mateotti, abrindo caminho para a marcha contra Roma e a tomada do poder real pelos fascistas no Parlamento. Mas aqui não estamos falando de política, e sim de poder, o que é o caso das milícias populares de Hugo Chávez e agora Nicolás Maduro na Venezuela, de Daniel Ortega na Nicarágua e de Pablo García na Colômbia. As milícias populares de Bolsonaro não podem ser confundidas com as de inspiração esquerdista acima citadas, mas são em tudo e por tudo antidemocráticas e, portanto, contra o exercício da democracia na política.

“Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, disse, em curtíssima intervenção, o ministro da (falta de) Educação, Abraham Weintraub, irmão de Arthur, que se considera representante em Brasília do “ideólogo”-mor da famiglia Bolsonaro, Olavo de Carvalho. O programa de fechar o órgão máximo do Judiciário, bandeira dos bolsonaristas de raiz, entre eles o ministro que confunde Kafka com kafta, e depois prender por nada seus componentes do poder de nossa republiqueta das bananas do Vale do Ribeira, onde viveu o magistrado supremo, como se diz no formalismo do poder republicano, não está previsto em nenhum manual decente de política, por mais ideológico que seja. É apenas um crime previsto no Código Penal e na Lei de Segurança Nacional, abrigada na Constituição em vigor. É, portanto, o ânimo criminal, e não ideológico, que inspira o idiota que comanda a pasta mais importante do País e não disse uma palavra a respeito dela na ocasião.

Muitos termos chulos foram usados pelos membros do chulé da extrema direita, mas nenhum foi pronunciado na fala do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Nada, contudo, foi tão pornográfico como o que fez numa rara menção à gravíssima crise sanitária provocada pelo novo coronavírus. “O meio ambiente é o mais difícil de passar qualquer mudança infralegal em termos de infraestrutura, instrução normativa e portaria, porque tudo que a gente faz é pau no Judiciário, no dia seguinte. Então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, disse, sem tugir nem mugir. Entre Weintraub e ele, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich retorceu-se em evidente desagrado, que, na certa, o levou a desertar da patota imunda. Fez bem. O recorde de derrubada da Floresta Amazônica demonstra que as palavras do ministro, condenado por improbidade em primeira instância por ato administrativo no governo do tucano Alckmin no Estado de São Paulo, não foram semeadas em vão.

Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também se referiu à terrível crise sanitária vivida no Brasil. “A pandemia vai passar, mas governadores e prefeitos responderão processos e nós vamos pedir inclusive a prisão de governadores e prefeitos. E nós tamo (sic) subindo o tom e discursos estão chegando. Nosso ministério vai começar a pegar pesado com governadores e prefeitos. Nunca vimos o que está acontecendo hoje”, disse, bem ao estilo terrivelmente evangélico que encanta o bajulado pornógrafo-chefe. Sua inspiração não pode ter sido do evangelho do amor, mas, provavelmente, do gabinete do ódio, chefiado pelo filho 02 do chefão da União, Carlos Bolsonaro. É inimaginável que ela tenha aprendido esse tipo de delinquência vulgar com Jesus Cristo na goiabeira. Mais fácil terá sido em seu ofício de coletora de dízimos do que em manuais de política, democracia e coisa pública (res publica em latim).

Um silêncio eloquente na reunião foi o do chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno Ribeiro de Almeida, a quem o “capitão da cloroquina” teria dirigido as queixas mais duras (na verdade, o vídeo provou que eram contra Moro), numa estúpida versão fantasiosa bolada por ele e dois colegas de farda e galões no Palácio do Planalto, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos. Não se sabe se para esconder a vergonha da mentira desmascarada antes de ser contestada, ele deixou para aparecer na sexta-feira 22 de maio assinando de próprio punho uma nota golpista de ameaça ao decano do STF, por ter este encaminhado a seu amado chefe aviso de que consultara o procurador-geral da República, Augusto Aras, sobre notícia-crime de que é alvo.

O autor do crime contra a Lei de Segurança Nacional, assinada por João Figueiredo no último governo da ditadura e incorporada à Constituição, já foi condenado por um crime menor, de intendente. O Tribunal de Contas da União o flagrou em compra irregular de equipamentos esportivos numa olimpíada do Exército. O general, que foi gravado cantarolando “se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”, também foi obrigado a deixar discretamente a sinecura de que gozava no Comitê Olímpico Brasileiro assim que seu chefe e protetor, Arthur Nuzman, foi preso sob a acusação de ter participado da compra da escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016.

A experiência “ideológica” do arapongão do Palácio foi o golpe frustrado do general Sylvio Frota, de quem era ajudante de ordens como capitão, contra Ernesto Geisel. O grupo, a que também pertenciam os assassinos e torturadores Brilhante Ustra e Major Curió, escalado pelo chefe para receber os comandantes de tropas no aeroporto foi enganado por um “frotista”, general Fernando Bethlem, que recebeu os quatro-estrelas à saída da escada dos aviões em que chegaram para a posse deste.

Hoje o acusado de crimes contra humanidade no Haiti é estrela “frotista” dos generais empregados pelo capitão na produção de gosto similar ao linguajar chulo da reunião, intitulada “a volta dos que não foram”. E o que é grave: ninguém parece querer impedir que fiquem pendurados no cabide de altíssimos cargos com as garras fincadas no filé mignon do poder da triste república dos sem-coragem nem vergonha.

*Jornalista, poeta e escritor

Publicado em: 26/05/2020