Tu vota em mim e eu voto em tu

Meu pai Gastão Cerquinha, 98 anos, era um político extremamente conciliador. Nunca entendeu minha relação profissional conflituosa com a fauna animalesca da cena política e vez por outra me dava uns cascudos quando me via envolvido em brigas. Mas era também muito sagaz e divertido.

Para divertir o noticiário de hoje e alegrar o início desta terça de mais uma semana de isolamento social me pediram para contar uma história muito engraçada dele quando emplacou o terceiro e penúltimo mandato de vereador de Afogados da Ingazeira.

Eleição apertada, com muitos candidatos em disputa, papai não teria gostado do atrevimento de um velho cabo eleitoral de ter se lançado candidato. Para transferir, era bom no exército de aliados de papai. Como candidato, não foi votado nem pela família, conforme as urnas abertas atestaram.

Ele morava num sítio, analfabeto e extremamente dependente de papai. Até as cartas que mandava para os filhos em São Paulo era papai que redigia. Papai fez de tudo para ele desistir da candidatura. Vendo que de fato não ia conseguir, papai inventou uma história malandra que ele caiu fácil. O procurou e disse: "Zé, você sabe que a lei proíbe que a pessoa vote nela própria? Então, vamos fazer o seguinte: você vota em mim e eu em você e ai a gente fica acertado".

O matuto levou a conversa a sério. Abertas as urnas, naquele tempo de contagem manual, um a um no papel, o dito cujo só teve dois votos. Chegando em casa, pediu o divórcio.

"Só tive dois votos. O meu e o do compadre Gastão, que é cumpridor de palavra. Nem você votou em mim", resmungou.

Até hoje, papai se diverte com essa história e garante que nunca foi real. Exageraram na dosagem, segundo ele.

Publicado em: 26/05/2020