A minha versão sobre a hidroxicloroquina

Por Beatriz Costa Lima Almeida*

Gostaria de me posicionar nessa polêmica do tratamento da Covid-19, onde vejo uma grande confusão e falta de respeito a nós médicos, que somos os prescritores dos tratamentos. Acho que está havendo uma politização nas diretrizes a serem tomadas diante dessa grave pandemia, estamos perdendo um tempo precioso, pois não nos concentramos no essencial que é o controle e o tratamento das pessoas afetadas. Gostaria de esclarecer que não sou eleitora do Bolsonaro, pessoa por quem não nutro qualquer admiração, pelo contrário, discordo radicalmente dele em tudo. Mas agora não é hora de disputas políticas, temos que nos focar no que é realmente importante, na grande ameaça que esse vírus representa.

Na medicina, aprendi que não existe unanimidade, que não existe a palavra sempre nem nunca; convivemos com correntes diferentes de pensamento e, o que hoje é uma verdade, pode não ser amanhã, pois nossas certezas são relativas. Muitos dogmas já foram mudados.

Não dá para se ter certeza de nada, não existe ainda um estudo com o desenho adequado, que nos prove que a hidroxicloroquina seja ou não eficaz. Não houve tempo suficiente para realizarmos um trabalho científico confiável, sem tantos vieses.

Nós médicos temos o direito de prescrever de acordo com os nossos conhecimentos e opiniões, seremos, como sempre, responsáveis por nossos atos, não podem nos tirar esse direito. Não admito que, por um decreto, sejamos proibidos de prescrever um remédio que existe no mercado há 70 anos, sendo prescrito, inúmeras vezes, por meses e até por anos, pelos infectologistas, reumatologistas, dermatologistas e outros, com evidências favoráveis, quando bem aplicado e no momento certo.

Não adianta me apresentarem um estudo com um grande número de pacientes, mas que foram tratados quando já estavam internados, com um quadro grave, onde a cloroquina sabidamente não traria qualquer benefício. Sabemos claramente que ela só atuaria no início da doença, então teria que ser prescrita nos primeiros sinais e a nível ambulatorial.

E agora, o que temos? O medicamento sumiu do mercado, não se consegue mais encontrá-lo, mesmo formulando. É justo que tenham recolhido exatamente agora? Por que não recolheram ou proibiram durante os últimos 70 anos? Será que só agora ele mostra os seus “graves efeitos colaterais”? Eu, como dermatologista, já prescrevi incontáveis vezes, não por poucos dias e sim por meses, anos, enfim, e nunca me deparei com qualquer efeito colateral grave, que me fizesse parar de prescrever.

Acho profundamente incoerente que o governo de Pernambuco aprove o uso da hidroxicloroquina para os pacientes graves, internados nas enfermarias ou UTI, onde já se sabe que não traria qualquer benefício, mas proíbam os médicos de a prescreverem nas UPAS ou consultórios médicos, invadindo o nosso direito de exercer a nossa profissão. Não aceito isso!

*Residência em Clínica Médica pelo Hospital Heliópolis de São Paulo; Dermatologista pelo Serviço de Dermatologia do Hospital dos Servidores Públicos Estaduais de São Paulo; Mestra pelo Serviço de Dermatologia da UFPE. Sócia da Sociedade Brasileira de Dermatologia, sócia da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, Sócia do Grupo Brasileiro do Melanoma, Membro da International Society of Dermoscopy

Publicado em: 25/05/2020