Coluna da segunda-feira

Beatriz chorou e me fez chorar

Há uma semana, exatamente 11 dias, o Brasil perdeu um grande homem; Pernambuco, um dos seus símbolos: Ricardo Brennand. Não se tratava de uma sumidade apenas como colecionador ou industrial. Sua maior grandeza era a simplicidade. De tanto viver no anonimato, poucos conheciam a sua monumental trajetória de visionário, futurista, que enxergou além do infinito. Só no último sábado, ao me comover com seu belo depoimento à repórter Beatriz Castro, num especial da TV-Globo, minha ficha caiu.

Não só eu como tantos brasileiros não conheciam Ricardo Brennand porque ele não dava entrevistas, vivia no anonimato. A única jornalista que arrancou dele declarações comoventes, sinceras e apaixonantes foi Beatriz. Só aí entendi o choro dela ao noticiar em rede nacional a morte do empresário pela Globo News. Bia, como é conhecida, não conteve a emoção, pediu desculpas e chorou diante do Brasil. Com o seu especial, sábado, quem chorou fui eu.

Por muitas razões. A simplicidade, tesouro em ouro de Brennand, me fez fazer uma viagem ao maior ensinamento do meu pai Gastão Cerquinha. Matuto embrenhado nas plagas do Pajeú, onde fincou raízes e nunca abandonou, nem mesmo no último pau de arara, como cantou Patativa, deixou essa frase em um dos seus livros: "O bom da vida: ser e não parecer, regar os sonhos, viver para servir".

Por tudo que vi na reportagem de Bia, Brennand foi assim: grande sem parecer, regou sonhos materializados, viveu sem se servir de tudo que construiu. Um dos dez mais importantes museus do mundo, o Instituto Ricardo Brennand, num castelo imponente na Várzea, destoante do cenário pobre do Nordeste, foi erguido em solo pernambucano para o povo, não para ele.

“Isso não é meu, eu fiz para ser público, por isso criei um instituto”, disse, num ar juvenil, de moleque apaixonado pelo que faz em benefício da coletividade. Cada depoimento, uma emoção. Disse que não teve o dom de escrever, mas de fazer, numa referência ao complexo industrial que criou ao longo dos seus 93 anos bem vividos, gerando milhares de empregos, abrindo uma janela econômica de um novo paradigma no Nordeste, especialmente Pernambuco, Estado que se dedicou de corpo e alma.

“E tudo que fiz, deu certo”, completou. Ricardo Brennand escreveu uma página de vida linda nesse Brasil desigual e injusto. Mostrou para o mundo que é possível no Nordeste, longe dos grandes centros culturais do País, como São Paulo e Rio, se firmar como um dos maiores nomes das artes plásticas do Brasil. Em mais de 70 anos de atividade artística, apresentou ao mundo desenhos, painéis, esculturas e as cerâmicas vitrificadas pelas quais ficou conhecido no Brasil e no exterior, ao lado do primo Francisco Brennand, considerado por ele como um irmão.

Formado em Engenharia pela Universidade federal de Pernambuco, Brennand se dedicou por anos aos negócios da família, que incluía a marca nacional de cimentos e investimentos nas áreas de energia eólica e hidráulica. Em 2002, inaugurou o Instituto Ricardo Brennand, em uma área de mais de 77 mil m² no Recife. Além das pinturas de Post, a maior coleção do artista holandês que se tem notícia no mundo, feitas durante a ocupação holandesa no Brasil, a instituição também abriga em seu acervo uma ampla coleção de armas brancas, incluindo armaduras medievais.

O empresário e colecionador de arte morreu vítima do novo coronavírus. Na telinha global, no sábado 24/4, ao comentar a biografia do ilustre pernambucano, Beatriz se emocionou ao lembrar de duas entrevistas que fez com ele. “Momento muito difícil para a gente”, disse, com a voz embargada. Na sequência, a repórter não segurou a emoção e começou a chorar. “Minha relação pessoal com ele era de muita gratidão, porque ele não falava com a imprensa e por duas vezes me deu entrevista”, explicou.

Ela seguiu com a reportagem e informou a cremação, antes de encerrar a participação no jornal. “Desculpa, pessoal”, pediu. A emoção de Beatriz Castro deixou muita gente de coração mole se derramando em lágrimas também. Bia não chorou só, o Brasil chorou com ela a perda de um grande brasileiro, cujo legado é a devoção à arte, desde 1939, quando ganhou seu primeiro canivete.

Em 1952, montou a Usina São João, depois abriu indústrias de porcelana, aço, cerâmica cimento, vidro e açúcar. Em 1999, implantou o Instituto Ricardo Brennand, que conta com o Museu de Armas, pinacoteca, destinada a eventos e exposições, restaurante, biblioteca e da Capela Nossa Senhora das Graças. Com o IRB, o pernambucano contribui com a formação escolar, promovendo a complementação do ensino regular de História, sobretudo História do Brasil Holandês, por meio de parcerias com instituições públicas e privadas.

A magnitude de Ricardo Brennand não precisa de tantas palavras e arrodeios. Sua morte foi lamentada por nada menos o The New York Times, o maior jornal do mundo.

Bela homenagem – Muita gente homenageou Ricardo Brennand. O empresário Eduardo Monteiro, sobrinho dele, caprichou na emoção: “ Inteligente e bem-humorado, conseguiu provar, não com palavras, mas com o exemplo prático, que a economia não é o oposto da cultura, e sim que as duas são coroa e cara da mesma moeda: do desenvolvimento, que nunca se faz sem conhecimento. Do conhecimento que deve estar a serviço de algo real, que faça a vida das pessoas melhor. Sua riqueza foi sempre do tamanho da sua generosidade e grandeza de alma e de vitória também nas coisas concretas da vida. Ele, em si mesmo, é o grande legado. O exemplo para sua família, os empresários e até aqueles que não o conheceram, mas se beneficiam de sua obra: empresarial e cultural, na qual se imortaliza”.

Ato covarde – No dia de ontem, quando se comemorava a liberdade de Imprensa, meu amigo Dida Sampaio, fotógrafo veterano do Estadão, com o qual compartilhei momentos históricos do processo de redemocratização do País, foi agredido covardemente por bolsonaristas quando registrava imagens do presidente em frente a rampa do Palácio do Planalto, numa área restrita para a imprensa.  Sampaio usava uma pequena escada para fazer o registro das imagens quando foi empurrado duas vezes por manifestantes, que desferiram chutes e murros nele. O motorista do jornal, Marcos Pereira, que apoiava a equipe de reportagem, também foi agredido fisicamente com uma rasteira. Os manifestantes gritavam palavra de ordem como “fora Estadão”.

No limite – Durante a manifestação de apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, ontem, o presidente Bolsonaro enviou recados ao STF. Em uma live feita em sua rede social, disse que "chegou ao limite" e cobrou que suas decisões sejam respeitadas. Ele também prometeu nomear, hoje, o novo diretor-geral da Polícia Federal. “Chegamos ao limite. Não tem conversa. Daqui para frente, faremos cumprir a Constituição. Amanhã nomearemos o novo chefe da Polícia Federal”, esbravejou. Bolsonaro também pediu a volta dos brasileiros ao trabalho e voltou a criticar governadores, além de contrapor o novo coronavírus e a situação econômica. Se ele está de fato no limite, como desabafou, imagine o povo brasileiro nessa crise tripla na saúde, na economia e na política!

Covid no Poder – A pandemia do coronavírus chegou ao poder estadual. Ontem, o secretário de Imprensa, Eduardo Machado, cria de Geraldo Júlio, divulgou nas redes sociais, que testou positivo para o novo coronavírus. Segundo ele, o resultado do exame saiu na sexta-feira passada e se recupera em casa, com sintomas leves da doença. Trata-se do primeiro secretário estadual que assumiu ter sido contagiado. Machado relatou que não se sentiu bem no dia 27 de abril e, desde então, está afastado do trabalho. No dia seguinte, fez o exame e foi diagnosticado com Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. "Se Deus quiser, logo, logo, estarei de volta ao batente", disse na postagem pelas suas redes sociais.

CURTAS

O DRAMA DAS FILAS – Enfim, o governador Paulo Câmara (PSB) enviou à Caixa Econômica Federal (CEF) um ofício e colocou à disposição do banco estruturas públicas estaduais para ajudar no atendimento a pessoas que precisam sacar o dinheiro emergencial da pandemia do novo coronavírus. Ele também solicitou ao Ministério da Saúde apoio para manter as medidas de isolamento social e informou a chegada de novos respiradores para as unidades de saúde. Ao longo da semana passada, houve longas filas e tumulto. O drama de quem precisa sacar os R$ 600 vem se repetindo com frequência em várias agências, apesar de medidas impostas pela Justiça. “Nós também colocamos à disposição o apoio da Polícia Militar para manter a segurança desses locais”, disse o governador. Antes tarde do que nunca!

OS FICHAS-SUJAS – Uma penca de prefeitos e ex-prefeitos pernambucanos continua emporcalhado, com contas rejeitadas pelo Tribunas de Contas do Estado. No Pajeú, três notáveis: Carlos Evandro (Avante), que sonha em voltar a disputar a Prefeitura de Serra Talhada; Totonho Valadares (MDB), que ora acena que sai candidato em Afogados da Ingazeira contra o nome indicado pelo prefeito José Patriota (PSB), ora baixa a crista e admite se compor. Entre os prefeitos no exercício do mandato com tendência para ficar também com a ficha suja ou imunda, quando se trata de mais de uma conta rejeitada, Evandro Valadares (PSB), de São José do Egito, a terra do reino encantado da poesia.

AS PROVAS – Fontes do G1, portal das Organizações Globo, que participaram ou que souberam sobre o conteúdo do depoimento de Sergio Moro disseram que a PF extraiu do celular do ex-ministro as provas exibidas ao Jornal Nacional, como a conversa em WhatsApp com o presidente Jair Bolsonaro e com a deputada Carla Zambelli. Informaram ainda que Moro forneceu novas provas à polícia e, principalmente, indicou maneiras de conseguir outras. A demissão do ex-ministro ocorreu em 24 de abril. Durante o depoimento de mais de oito horas na Polícia Federal (PF), em Curitiba, sábado, Moro foi questionado sobre as acusações de que o presidente Jair Bolsonaro tentou interferir no trabalho da PF e em inquéritos relacionados a familiares.

Perguntar não ofende: Quem vai fiscalizar a dinheirama que o Governo Federal está liberando para as prefeituras?

Publicado em: 03/05/2020