Coluna da quarta-feira

O exemplo que vem do Cabo

Em tempos em que a morte pelo Covid-19 vai arrastando almas para o cemitério sem distinção social, sexo ou raça, ameaçando a vida até de poderosos, como o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), ter no Estado ou na gestão municipal alguém experiente, talhado e comprometido com a vida das pessoas faz a diferença. É o caso, por exemplo, do Cabo, na Região Metropolitana do Recife, administrada por Lula Cabral (PSB), em seu terceiro mandato com altos índices de aprovação.

Como todo entorno da Grande Recife, a cidade não poderia ser uma ilha. Pelos boletins oficiais do Estado, ali morreram cinco pessoas e existem 15 casos do coronavírus confirmados. O que diferencia, entretanto, é a coragem do enfrentamento, sensibilidade e tino para saber como agir. Consciente de que o mundo está diante de uma tragédia sem a menor a noção de final nem suas consequências, Lula cuidou de estruturar a rede municipal de saúde para o enfrentamento ao inimigo invisível.

A rede pública do município conta com 30 leitos reservados para os pacientes da doença do fim do mundo, sem contar com o número disponível na área privada. Diferente de cidades vizinhas acometidas pelo mesmo mal, como Jaboatão, que até o momento não sinalizou para hospital de campanha, no Cabo Lula está construindo duas unidades, com 120 leitos num padrão classe A.

O primeiro hospital de campanha se ergue na corrida contra o tempo nas imediações da PE-60, com capacidade para 90 leitos e o segundo no Ginásio Gibão, em Pontes dos Carvalhos, um dos maiores distritos do município, este com 30 leitos. Todas essas vagas serão disponibilizadas ao Governo do Estado para que processe a regulação, sem distinção nem tratamento diferenciado.

Paralelamente a isso, as ruas do Cabo estão em permanentes ações de higienização, incluindo todos os seus logradouros públicos. Equipes de saúde que atuam no combate ao mal passam por treinamentos rigorosos. Alguém pode dizer que o prefeito não está fazendo mais do que a sua obrigação para salvar vidas, mas por que Jaboatão e Ipojuca não seguem a mesma cartilha, o mesmo padrão, se, financeiramente, são mais estruturados?

O exemplo do Cabo contrasta também com o que assistimos no Recife, uma disputa entre o governador Paulo Câmara e o prefeito Geraldo Júlio por refletores – quem faz mais ou deixou de fazer. Aliás, a volúpia de Geraldo é tão desenfreada, que, na maioria das vezes, ofusca o governador. A mídia, por sua vez, não tira os olhos da capital, esquecendo de acompanhar e investigar o que fazem as cidades vizinhas na guerra contra o coronavírus.

Se tirar os holofotes do Recife em direção ao Cabo, a mídia terá dado a uma boa contribuição para mostrar quem de fato encara o problemão pela frente. Sorte teve a população cabense com a volta de um gestor experiente e competente como Lula.

Números da tragédia – Na confirmação do abril de nuvens negras, o Estado confirmou, ontem, mais 130 casos de pacientes com a Covid-19, doença transmitida pelo novo coronavírus. Com isso, Pernambuco passa a ter 1.284 casos. Também foram confirmados mais 13 óbitos, elevando o número total a 115 mortes. De acordo com a Secretaria de Saúde as mortes confirmadas foram de dez mulheres e três homens, com idades entre 45 e 95 anos. Os óbitos ocorreram entre os dias 3 e 13 de abril. Informou, ainda, que há registro de 11 novos pacientes curados da Covid-19. Com isso, o número de curados em todo o Estado subiu para 68.

Assalto e medo – Os comerciantes do centro do Recife estão reclamando da falta de segurança durante o período de pandemia do novo coronavírus. No último domingo, uma câmera de segurança registrou o momento em que dez pessoas arrombaram uma loja de óculos e joias na Rua das Flores, no bairro de Santo Antônio. O dono, que pediu para não ser identificado, calcula que o prejuízo foi superior a R$ 8 mil. Não é, porém, um caso isolado. Vários comerciantes de outros pontos do centro do Recife estão com medo. Reclamam que, sem movimento nas ruas e com o comércio fechado por conta da pandemia do novo coronavírus, os bandidos têm liberdade para agir.

O drama de Noronha – Os representantes do Conselho de Turismo (Contur) de Fernando de Noronha estão preocupados com o futuro do setor, após o período de pandemia do novo coronavírus. A ilha está fechada para a visitação desde o dia 21 de março e não há previsão de reabertura. Por conta da indefinição, o conselho fez uma série de reivindicações ao governo local, como linha de crédito e isenção do Imposto Sobre Serviço (ISS). O Governo Federal publicou uma a medida provisória (MP) que dispensa empresas de fazer o reembolso imediato de serviços cancelados no setor de turismo por causa da Covid-19. A decisão animou alguns empresários, donos de pousadas na ilha.

Sequestro – Um casal de bancários e seus três filhos foram vítimas de sequestro na noite da última segunda-feira, por volta das 21h30, em Timbaúba, Zona da Mata. Os reféns foram liberados pelos sequestradores por volta de uma hora da madrugada de ontem. De acordo com a Polícia Militar, policiais do 2º Batalhão foram informados de que um carro estava rondado a casa da família e seguiram para o local. Uma vez lá, ainda segundo a nota enviada à imprensa, os agentes prenderam um dos suspeitos do lado de fora da casa, mas constataram que os outros membros haviam fugido, levando os reféns.

CURTAS

CONSTITUIÇÃO RASGADA – Cinco conselheiros do Tribunal de Contas rasgaram a Constituição na cara dos pernambucanos ao permitir o atentado do prefeito do Recife, Geraldo Júlio, à Carta Magna, aprovando a cobrança antecipada do recolhimento do IPTU de 2021. São eles: Marcos Loreto, Ranilson Ramos, Dirceu Rodolfo, Carlos Neves e Valdecir Pascoal. Todos eles foram nomeados por Governos do PSB, entre as gestões de Eduardo Camara e Paulo Câmara. Até que poderiam retribuir a gentileza com outros gestos magnânimos, mas não ferindo a lei para agradar poderosos.

LUTO NO JORNALISMO – Perdi, ontem, um amigo, jornalista referencial do início da minha carreira no Diário de Pernambuco: o dramaturgo e poeta Valdir Coutinho. Era um repórter completo, de faro raro, sensibilidade à flor da pele, texto irretocável. Eclético, o conheci escrevendo sobre futebol na equipe do grande e inesquecível Adonias de Moura. Trazia ao leitor também belas entrevistas e matérias culturais no caderno Viver, editado pela jornalista Lêda Rivas. Só mais tarde, descobri outra façanha dele: ator, dramaturgo e criador do Baile dos Artistas, o mais irreverente e debochado que já conheci nos carnavais do Recife.

MORAES MOREIRA – A audiência do Frente a Frente de ontem bombou com o especial em homenagem ao cantor baiano-pernambucano Moraes Moreira, que morreu, aos 72 anos, vítima de um infarto fulminante, no Rio. Depoimentos fantásticos e emocionantes deram um colorido especial ao programa, como os de Alceu Valença, Fagner, Margareth Menezes, Paulinho Boca do Cantor (Novos Baianos) e Pepeu Gomes, além do compositor Maurício Dias, que também compôs para João Gilberto. Se o leitor deseja ouvir o programa, entre no blog. Fica disponível na chamada à direita Frente a Frente.

Perguntar não ofende: Quem está matando mais: o Covid-19 ou a violência urbana que desafia o Pacto pela Vida?

Publicado em: 14/04/2020