O hospedeiro

Por Maciel Melo*

Me transformei num jarro para protegê-la e o seu perfume, ainda hoje, exala. Fiz do meu peito uma imensa sala e lhe pus no centro para poder vê-la. Por muito tempo consegui contê-la, mas suas raízes estouraram o jarro, se fizeram rios, e fluíram as veias do meu coração. Me fiz oceano para recebê-la, enquanto amasiava-se com seus afluentes, parindo versos cheios de metáforas, rompendo barreiras, singrando as vazantes da vida, dizendo ao mundo que a palavra foi feita para vestir a voz, e não para bradar sua vã filosofia.

Nas linhas do papel se fez riacho, jorrando rimas sobre as folhas do caderno. Cada página era uma vila, um povoado, um vilarejo; era um parágrafo onde descansavam os verbos e os motes eram pescados com os anzóis invisíveis da imaginação. Usava como isca as frases ditas pelos excluídos, pelos humildes, pelos humilhados; por aqueles que vivem à margem do tempo, cheios de dúvidas, cheios de dívidas, cheios de esperanças, sem eira nem beira, sem chão, sem teto e sem saber por que bater continência, se ser civil é ser servo, serviçal, é servir aos seus algozes carregando no ombro o peso da intolerância do poder.

Sou seu hospedeiro, ela, minha inquilina. Em mim, ela pode se achar e se perder nos labirintos da história de seu povo, de bandeira em punho, de espada em riste, sem temer a morte, sem zombar da sorte, sem bater continência, sempre alerta, mantendo a postura e mudando o jeito da posição de sentido. Ela é minha amada, amante e companheira, fonte de vida, o favo doce de uma colmeia rara.

Eu sei que vocês estão curiosos para saberem o nome dela. O nome dela é: “Poesia Flor do Livro do Livramento”.

*Cantor e compositor

Publicado em: 17/02/2020