O fim da era dos jornais centenĂ¡rios

Por Tonico Magalhães*

Duvido que daqui a 100 anos alguém vá ler num blog um texto apresentado desta forma. Primeiro, os blogs neste formato dificilmente vão existir e, segundo, o leitor terá várias opções de visualização e até mesmo no formato audiovisual, dispensando o uso de palavras escritas.

Esta reflexão acontece por causa de uma exposição que abrirá amanhã na Fundação Joaquim Nabuco sobre os jornais centenários do Brasil e de Portugal. São 52 periódicos com mais de 100 anos em plena atividade - como os nossos Diário de Pernambuco (1825) e o Jornal do Commercio (1919) – que se mantiveram como guardiões da história desses dois países, como disse o presidente da Fundaj, Antonio Campos. Uma memória duradoura contida em folhas de papel de imprensa.

A mostra vem calhar no momento em que a imprensa escrita – jornais e revistas – começa a fraquejar com a falta de leitores e anunciantes, que se deslocaram para os noticiários da Internet e redes sociais, deixando aqueles veículos tradicionais sem muitas opções para sobreviver.

Na exposição se observa a força dos jornais junto à sociedade de cada época. Como o debate político ou comportamental agitou as pessoas, como revolucionou cidades, como derrotou tiranias, como apressou a chegada da modernidade, enfim, como impulsionou essa gente à Era da Internet, um período fatal e também transformador para esta imprensa.

Há milhares de anos a história da humanidade vem sendo registrada pela escrita em papel ou pergaminho com aspectos duradouros. Por esses documentos, inclusive pelos jornais, foi possível a reconstituição da trajetória do homem sobre a terra. Mas essa forma exclusiva de arquivamento está esgotada, sendo substituída pela digitalização de papéis antigos e a guarda dos nascidos digitais. E não se sabe até que ponto estes arquivos eletrônicos são seguros. Uma dúvida para o tempo. A incerteza do guardião.

A sociedade também está preocupada com a trajetória da imprensa como se conhecia, uma vez que existe hoje um excesso de personas intermediadoras do processo informativo. Umberto Eco, escritor e filósofo italiano já falecido, crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, alertou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".

Neste período, enfraqueceu o papel do jornalista na seleção e edição de notícias. Hoje todos falam e têm opiniões diversas sobre os mais variados temas. Cabe ao leitor, se quiser se informar corretamente, levar em conta quem transmite a informação, valor que remete aos tempos dos centenários jornais impressos: o redator ou provedor de conteúdo ainda tem a palavra abalizada.

Como jornalista vivi toda essa transição, da máquina de escrever, da linotipo (veja no Google essa forma pré-histórica de impressão), passando pelo off set, pelos computadores na redação, pela Internet até pelo home office, de onde escrevo agora. E posso assegurar que podem mudar as formas de levar notícias ao público, mas o bom e honesto conteúdo é o que garante a permanência da imprensa no cenário humano.

A exposição sobre jornais centenários brasileiros e portugueses é uma iniciativa da Associação Portuguesa de Imprensa e da Associação de Imprensa de Pernambuco em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco. Ela fica aberta até 17 de novembro na galeria Baobá, no campus da Fundaj em Casa Forte.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Publicado em: 17/10/2019