Um brinde à vida

Ao dobrar, hoje, a era dos sessentões, faço, primeiro, de joelhos fincados no chão duro, como mamãe nos deu o seu ensinamento no mês Mariano, uma prece de agradecimento a Deus por ter me devolvido à alegria do viver.

A vida é uma dádiva divina. Faço a cada hora uma prece a Deus, que me tirou das trevas da depressão, do enclausuramento, do mundo sem sentido. 

Augusto Cury diz que os problemas da vida nunca vão desaparecer, mesmo na mais bela existência. Eu tenho consciência disso, mas navegar é preciso, como recitou Fernando Pessoa.

Depois das preces ao Criador, minhas reverências aos meus pais, a mamãe Margarida, que era uma flor margarida e que Deus já a levou, e ao meu amado pai Gastão. Eles conceberam nove filhos, dos quais sou o sexto. Nascemos todos de parto natural, a maioria sob o auxílio de parteira.

Dentre meus oito irmãos, decisivos na minha recuperação, se inclui a deusa Ana Regina, de todas a mais parecida com a minha mãe, não apenas fisicamente, mas na forte  personalidade. Mamãe não levava desaforo para casa. Era altiva, braba e moralista, mas de uma doçura que chegava à lua, de tão grande.

Foi Ana com seu sedutor Paulo que me deram assistência 24 horas por dia durante o tempo que meus leitores e ouvintes sentiram a minha inexplicável e silenciosa ausência. A eles, um enorme abraço de gratidão. Nunca vou esquecer.

Extensivos agradecimentos ao médico Dennison Monteiro, da Catolé da Rocha que revelou ao mundo artístico o cantor Chico César. Aos que sofrem por qualquer avaria mental sugiro que batam à porta do seu consultório para selar um pacto pela cura.

Acredite: aprendi com meus pais que não são as coisas materiais que farão você mais feliz. O que me faz feliz é o moer das palavras, fazer o seu ajuntamento com o extremo zelo que seja capaz de seduzir meus leitores. 

Eu tenho muitos amores na vida: os meus filhos Felipe, André Gustavo, mais americanos do que brasileiros, Magno Filho e João Pedro, meus caçulas com a vereadora Aline Mariano. Tenho devoção aos meus pais e paixão por meus irmãos. 

Amo, por fim, o Sertão. O Pajeú é o segundo rio mais seco do mundo, mas é incrível como as únicas gotas que restam no seu leito me inspiram até o último sopro na labuta diária com o teclado. 

Amo muitos amigos e poderia citar dezenas deles no Recife, Brasília ou Afogados da Ingazeira. Mas faço justiça a Eduardo Monteiro, um irmão que tenho em vida. 

Nunca me faltou em nenhum momento em que as barreiras pareciam intransponíveis. Foi ele que me estendeu, mais uma vez, a mão me trazendo de volta ao seu convívio na Folha. Grande caráter, grande humanista.

Aos que irão me saudar hoje, deixo o refrão da canção de Zeca Pagodinho.

E deixa a vida me levar (vida leva eu!) 
E deixa a vida me levar, vida leva (vida leva eu!) 
Deixa a vida me levar (vida leva eu!) 
Sou feliz e agradeço...

Publicado em: 23/08/2019