A planta baixa da Torre de Babel

Por Gilberto Marques*

“Em verdade, em verdade mesmo vos digo”: Tudo é política. Da educação na Escola Clássica, no grupo escolar, no barracão de lona que ensina a ler. Da saúde pública ao esgoto que entrega dejetos a céu aberto. Sempre foi assim. O mais forte abria clareiras nas caminhadas nômades. O líder ouvia as queixas do vizinho nas comunidades havidas do acaso. O Rei tinha pacto com Deus e produzia os filhos do rei. Que de pronto seriam reis. Os comandantes dos exércitos errantes; a peregrinação das conquistas; o Cavalo de Tróia; as serpentes de Cleópatra; a punhalada de Brutus; as Catilinárias de Cícero. Os Estados que se formaram. O ordenamento jurídico que veio na teia de organizar as organizações. Tudo é política.

Cada lugar com suas peculiaridades, seus ares, suas línguas, seus dialetos, suas danças, suas músicas. Na Grécia não tinha rei, mas tinha a Mitologia que criava deuses. A democracia que tinha escravos. Os filósofos que coordenaram os pensamentos escreveram suas teses, construíram silogismos. Da lamparina de Diógenes, a cicuta de Sócrates vem Platão. Vem Aristóteles no circuito. Da Grécia, vem Roma que consome a experiência do passado recente e dá forma às obrigações, aos direitos. O Senado e o ordenamento jurídico romano nascem no mesmo berço. No entanto, prevalece a ânsia das conquistas, o trote garboso dos cavalos armados, a biga veloz, as espadas amoladas, as lanças, tudo é política.

Os registros da Bíblia contêm política do primeiro ao último versículo. Deus é único. É o Rei dos reis. Monarquia é um regime político. O ser humano avança na tecnologia, mas continua preso a sua engenharia do passado. A baioneta calada dos fuzis de petardos sibilantes foi trocada por aviões ultrassônicos. Porém, o Kamikaze, a mulher, o menino e o homem bomba continuam bombardeando. E tudo é política dentro do planeta.

O que dizer do que houve no Tribunal Regional Federal, da 4ª Região, da sexta ao domingo, 8 de julho, próximo passado? O plantonista do plantão, do final de semana, fustigou o plantão de todos os jornais. Ganhou 16 minutos de fama e por certo a aposentadoria precoce. O erro do juiz é contemplado assim. Tudo pela política. O Judiciário é político. Vem da lei. A lei vem do Estado. O Estado é um ser político. Apesar de ser pessoa jurídica.

O Supremo Tribunal Federal abriu as portas, acendeu a luz, ligou as câmeras e os microfones. Caiu na boca do povo. Misturou tudo o que é política. O Congresso atiçou o Supremo e toda semana mandou sua cota nas ações e orações que compunham os pedidos. A discrição dos juízes virou fantasia. O Direito Penal saiu dos alfarrábios e virou arranca-rabo, de todo lado – Carnaval! Um gritou: chama a polícia. Outro gritou: chama o ladrão! Na maleta não há roupa. Tudo é dinheiro. Tudo é política. As cadeias se esborram e a política penitenciária nem aí. Jânio proibiu lança perfume, briga de galo, briga de canário. Mas pode brigar no ringue homem com homem, mulher com mulher. MMA com MMA. Pra entrar na cadeia não pode levar chocolate. Nem sanduíche na cueca. Pirulito pode.

E você, vai votar em quem? Você não sabe que o voto é secreto – Seu Cabra?

*Advogado criminalista

Publicado em: 12/07/2018