Cidade maravilhosa, vĂ­rgula

Profeta Adalbertovsky

MONTANHAS DA JAQUEIRA – A imagem é antiga, mas vale repetir: a poetisa americana Elizabeth Bishop (décadas de 1950 e 1960) contempla o cenário do Morro do Corcovado e declama: “Esta não é uma cidade maravilhosa. Este sim é um maravilhoso cenário para se construir uma cidade”. Referia-se ao Rio de Janeiro, naturalmente.

A paisagem é deslumbrante, mas uma cidade não é só paisagem. As organizações criminosas, corrupção, drogas, milícias e traficâncias infestam o cenário. Os governantes e as quadrilhas saquearam, esfolaram e degradaram a cidade.

O ultra bandido ex-governador hoje preso é produto de toda uma sociedade carioca corrupta. Desde a sua construção em 1923 a Câmara de Vereadores do Rio ganhou a alcunha de “Gaiola de Ouro” por ser fonte luminosa de escândalos e corrupção.

O guru da seita vermelha, que falava no “olhar carinhoso” do ex-governador meliante, nunca o visitou na cadeia. Aquela mulher mais incompetente da história da República dizia nos palanques que os cariocas tinham a obrigação moral de votar no cara por ser o governador mais perfeito que já existiu aos pés do Cristo Redentor. Sumiu. Nunca levou nenhum chocolate para o amigo presidiário. Nem o senador ex cara pintada e atual cara suja fez um discurso de solidariedade para defender o amigo do peito. Quanta ingratidão!

Não precisa muito esforço para descrever o império das milícias, dos traficantes e das drogas, dos bicheiros, das policias do mal, da malandragem. Vosmecês estão lembrados que havia o charme do malandro e da navalha, antes decantado no cancioneiro popular. Douraram as pílulas do malandro e do otário. Os megas malandros trataram milhões de cariocas como otários de nascença e de vivência. 

Ledíssimo engano dizer que a guerra da Tríplice Aliança – Brasil, Argentina e Uruguay – contra o Paraguay foi o maior conflito armado da América Latina. Durou de 1864 a 1870 e exterminou dois terços da população civil do Paraguay, na bala, fome e inanição. Produziu mais de 200 mil cadáveres em nome da Pátria de Solano Lopez. Da parte do Brasil foram para o além cerca de 50 mil almas.

Depois do clássico “Os Sertões” de Euclides da Cunha, o magistral peruano Mario Vargas Llosa escreveu “A guerra do fim do mundo” sobre o massacre de 20 mil esfomeados seguidores do beato Conselheiro no Arraial de Canudos em 1897 pelas tropas federais mantenedoras da “ordem e progresso” da República. As guerras de hoje são sujas e os novos bárbaros estão vencendo todas as batalhas.

A guerra no meio do mundo continua hoje aos pés do Cristo Redentor no reino unido das favelas da Rocinha e a república falida do Rio de Janeiro sob o domínio das milícias, das polícias, bandoleiros, bicheiros e corruptíssimos de todas as laias.    

Fuzilar beatos famintos do Arraial de Canudos e soldados mortos-vivos do Paraguay é muito fácil (foram mais de 250 mil cadáveres em nome da ordem e progresso auriverdes). Derrotar bandoleiros graúdos e miúdos que roubam os sonhos do Brasil, este é o Xis da equação. Pronto! Falei!

Publicado em: 06/12/2017